FALA COMIGO
Hora d’Ângelus. Religiosamente, sob os sons metálicos dos sinos de são Benedito, ao entardecer iluminado pela luz amarela da lua cheia, ecoa, na descida da ladeira - onde fiz meu recente ninho - uma voz potente, forte, destemida, protegida de máscara azul, enfrentando esta pandemia. E lá vem ela... Montada numa robusta motriz, branca e vermelha, de três rodas, à frente de uma caixa transparente, pra aguçar os olhos, recheada de guloseimas, gulodices e gostosuras... “Fala comigo”, ouço maravilhada “Já fez o café?” “Não tem pão?” “Fala comigo.” Essa voz revestida por uma forma humana alta, esguia, forte, alegre, potente, estrondosa, como se carregasse caixas acústicas, um autêntico afro-brasileiro com sua sublime, destemida e doce missão: amainar a fome diária com suas roscas de tranças açucaradas, bolos de frutas, pães de mel e o mais sublime de todos, o pãozinho nosso de cada dia... Lá vem Hélio, oriundo de Éolo, deus dos ventos, faz jus ao nome, passa voando o padeiro salva-vidas com ...