UM DIA EM RUTHERFORD

Dia 30 de dezembro do ano de dois mil. Oito e trinta da manhã. Rutherford, New Jersey, USA. O frio estava abaixo de zero. Olhando pela janela da sala do apartamento onde estou vivendo, podia observar as pessoas levemente encolhidas, procurando esquivar-se do vento gelado. Alguns moradores da rua já tinham saído para o trabalho, costumam sair antes do grande fluxo. Muitos trabalham na grande metrópole, New York. Após alguns minutos observando, resolvi “dar uma geral no apartamento”. Depois de limpar os outros cômodos voltei para a sala. Há dias a cadeira do escritório estava me incomodando (muito baixa) e resolvi acertar a altura, de forma que minhas mãos se acomodassem melhor no teclado do computador. Sentei e puxei a alavanca para impulsioná-la.

E por falta de sorte, puxei a alavanca errada. Neste momento, senti uma pressão muito forte no meu dedo. Gritei sufocada. “Meu polegar esquerdo ficou preso!” Tentei tirá-lo e nada! Ficou preso entre a mola do encosto e o assento. Instintivamente, puxei a alavanca achando que ela soltaria meu dedo e foi pior. Consegui apertar mais ainda. Comecei a ficar apavorada. Corri até a cozinha, com a cadeira pendurada, lógico, para pegar uma chave de fenda e forçar a abertura da mola. Nada! Meu dedo estava ficando branco, o sangue já não circulava mais. Joguei água tentando aliviar a pressão. Com a chave de fenda rasguei um pouco o tecido da cadeira tentando destruí-la. Nada! Fui até o quarto e coloquei a cadeira em cima da cama para aliviar o peso e tentar descobrir uma forma de tirá-lo. Nessas alturas, as horas estavam passando e o desespero tomando conta de mim. Pedia a Deus para me dar calma e não me deixar desmaiar ou que chegasse alguém, meus sobrinhos ficaram de passar em casa na parte da manhã, nem sinal. Comecei a estudar a montagem da cadeira e percebi que se tirasse os parafusos que sustentavam o assento era bem provável que aliviasse a pressão e tentei em vão girar os parafusos, a chave de fenda era muito pequena. A adrenalina já estava “a mil”. Não sentia mais dor e comecei a bater a cadeira no batente da porta para tentar quebrá-la, já que os móveis daqui são quase descartáveis, e nada! Meu dedo foi prensado mais um pouco. Consegui tirar o encosto e a única solução que via era procurar ajuda.

Desci as escadas e saí. Nem a porta fechei. Toquei a campainha em duas casas vizinhas e ninguém atendeu. De repente, olhei mais à frente e vi um caminhão parado, achei que era a salvação! Eu só precisava de uma chave de fenda de acordo. Andando pela rua feita uma alucinada, carregando uma cadeira de escritório, um frio terrível, e para completar estava de pijama xadrez e chinelos. Cheguei até perto do caminhão onde um homem estava arrumando o cano de uma casa. Pedi pelo amor de Deus, numa mistura de português com inglês, que ele me ajudasse. Olhou-me assustado. Acho que ficou com medo. Não me ajudou e falava em espanhol que não tinha chave e foi saindo de perto entrando na cabine do caminhão indo embora. Pensei em ir até uma escola que fica do outro lado da rua, quando vi um casal entrando no carro. Corri até eles e pedi socorro. A senhora me olhou e rapidamente travou a porta do carro com expressão de medo e deve ter pensado: que estava fazendo uma mulher de pijama, carregando uma cadeira, na rua, com aquele frio? Por certo seria alguma louca! Pensei eu. O marido desceu do carro e veio saber o que eu queria. Mostrei meu dedo preso dizendo, no meu inglês ruim, que estava limpando a cadeira e havia prensado o dedo. Precisava de uma chave de fenda. Ele disse não entender. Falei com gestos e disse que não tinha. Implorei pelo amor de Deus que me ajudasse! Nada! Desolada e já me vendo com o dedo amputado virei as costas para buscar auxílio em outro lugar. Incrível que até aquele momento não sentia frio e nem o peso da cadeira, só meus lábios começaram a ressecar e a saliva engrossar, dificultando minha fala. Quando estava saindo da garagem deles, o senhor me chamou e perguntou se eu queria que ele chamasse a polícia. Bem rápido disse que sim. Ele ligou, fazendo algumas perguntas, meu nome e endereço. Desligou e pediu para eu voltar para casa que a polícia estava vindo. Agradeci e já estava caminhando quando a mulher dele resolveu descer do carro e veio saber o que tinha acontecido. Mostrei meu dedo preso. Olhou. Ficou mais apavorada do que eu. Levou-me até sua casa e gritava com o marido para que fosse pegar a chave. Ele desceu até o porão e trouxe três. Pegou a menor e tentou girar o parafuso. Na verdade nem mexeu (acho que o medo de ter problema futuro nos Estados Unidos é tanto que as pessoas se esquivam para não se envolverem). Novamente a mulher gritou com ele e ao mesmo tempo procurava me acalmar. Pegou a chave tremendo sob o olhar atento da mulher, girando os parafusos e quando conseguiu tirar o quarto, ela delicadamente puxou minha mão, soltando meu dedo. Alívio geral! Não sentia meu dedo, estava totalmente amassado e não conseguia movê-lo. A polícia chegou neste momento e o policial levou um susto achando que não tinha mais jeito e tinha que ser amputado. Ela delicadamente começou a massagear minha mão e levou-me até a pia para jogar água morna enquanto forçava uns movimentos e pedia para eu também tentar. Diante da situação o policial ao lado preenchendo o formulário com perguntas sobre o ocorrido. Meu Deus, que tortura! Depois de uns minutos consegui mover sozinha o dedo. Aí comecei a ter consciência do ocorrido. Tomei um copo com água e queria voltar para casa, trocar de roupa e esperar alguém chegar. O policial não deixou. Pedi para a senhora ligar para minha nora. Maggie atendeu. A senhora pediu para que viesse me buscar e levar ao hospital. Desligou e disse que ela estava vindo. Continuou a massagear minha mão e o telefone tocou. Era Maggie. Dizia que não podia vir porque não estava com o carro e só percebeu depois de colocar a jaqueta e sair correndo até a garagem e não achar o carro. Fábio, meu filho e marido dela tinha ido para o trabalho em New York com o carro. Pedi para ligar para minha sobrinha Gilza. Não atende em nenhum dos números que passei. Maggie liga e pede para a senhora me levar até a casa dela, pois já tinha avisado Fabio e estava a caminho. Ela gentilmente disse que sim. O policial vendo o caso resolvido se despediu e saiu. Ela me emprestou um casaco e pude sentir a intensidade do frio quando saímos. Andamos uns quarteirões. A casa fica na mesma cidade e Maggie nos aguardava na porta. Despedi agradecendo emocionada e perguntei seu nome. “Cintia”, respondeu. Um nome que jamais esquecerei!

Fábio chegou e fomos ao hospital. Ficamos lá quase cinco horas. Passei por um médico geral e fez as preliminares. Minha pressão estava alta pela tensão e meus lábios queimados pelo frio. O médico me encaminhou para fazer exames. Até teste de gravidez e injeção contra tétano. Depois das radiografias fui encaminhada à ortopedia. A médica especialista em mãos analisou os exames e finalmente deu o resultado: estrangulamento dos nervos. Quinze dias com o dedo imobilizado.

A Cintia ligou para Maggie para saber como eu estava e pedindo desculpas por ter demorado em me socorrer, realmente pensou que eu fosse uma mendiga, mas depois notou que não tinha aparência de tal, então, é louca! O que uma mulher faz na rua de pijama, com tantos graus abaixo de zero e carregando uma cadeira de escritório?

Que brincadeira!

E o caso acabou virando piada entre os parentes e amigos.

Hoje dia dez de janeiro de dois mil e um, meu dedo continua adormecido. Estou fazendo fisioterapia.

Ah! A cadeira? No lixo!

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Cadeira 35T

Patrono: ÂNGELO PAZ DA SILVA

ANAMARIA GUIMARÃES IADELUCA


Publicitária, escritora, administradora de empresas, com especialização em Marketing Cultural. iniciou sua carreira em 1962 como locutora do programa estudantil “A Voz da Poesia”, na Rádio Difusora de Pindamonhangaba. Em 1964, participou de várias peças teatrais. Atuou como atriz ao lado de Mazzaropi. Por mais de vinte anos dedicou-se à publicidade. É autora do livro “Mulher”, participou em várias antologias, coordenou textos para o jornal “O Escritor” da UBE - União Brasileira de Escritores. Pertence a UBE e AJEB - Associação de Jornalista e Escritoras do Brasil. Foi Presidente da Academia Pindamonhangabense de Letras.

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