MEUS CAMINHOS EM BUSCA DE EQUILÍBRIO

Assumir conscientemente a complexidade humana acabou por me conduzir a caminhos felizes no trabalho da Psicoterapia Corporal e Educativa. Falo isso, pois, ao mergulhar em qualquer tipo de análise, me vem à lembrança as aulas de Filosofia da Educação ministradas por meu irmão Elydio. Como sou grata! Pacientemente ele criou um desenho de uma linha do tempo, a qual nos ajudou a compreender a modernidade. Somos gratos por sua contribuição tecnológica, mas também críticos com seus excessos. Para falar da condição humana em que nos encontramos, trarei um trecho de um texto dele e a seguir prosseguirei propondo possibilidades e ajustes.

Na obra “Educação e Complexidade”, da editora Salesiana, Elydio dos Santos Neto (2002, p. 23) afirma que “a partir da modernidade, fomos nos limitando basicamente a uma compreensão do mundo, de tipo cientificista, racionalista, mecanicista. Com isso, acabamos nos esquecendo de dimensões fundamentais do ser humano. A vida então passou a ser vivida em chave redutiva!”.

Quando se reduz a visão de algo, ou quando se coloca a atenção num só aspecto, negando um olhar mais abrangente para um todo existente, acaba-se criando um desequilíbrio que vai achar alguma forma de manifestar-se. Isso pode vir num formato de patologia específica ou num vírus mortal, feito esse que nos pegou de surpresa.

Jean Yves Le Lop, Ph.D. em Psicologia, teólogo francês, no volume “Espírito da Saúde”, define doença como algo que aparece quando se vive apenas na cabeça, se vive somente nas sensações, se vive só na afetividade, se vive somente no mundo externo ou interiorizado demais. Os extremos. Vejo a doença como uma crise do organismo sinalizando algo.

Leonardo Boff, filósofo, teólogo brasileiro, nos ilumina com a ideia de que crise é um momento que pode ser olhado como uma oportunidade, um alerta para fazermos uma faxina. Tiramos de cena o que já cumpriu seu papel e optamos por novas possibilidades, mais adequadas à necessidade. Estamos nesse momento dramático e já faz tempo que os sinais existem, porém agora foram intensificados e é caso de sobrevivência global. Ou modificamos nosso modo de vida, ou morreremos todos.

Marilyn Ferguson, jornalista norte-americana, na década de 80, lançou uma obra intitulada “Conspiração Aquariana”, pela editora Record. Relata as transformações pessoais e sociais nos anos 80. Passo a passo nos dá indicadores de que as transformações seguem rumo a uma junção, a uma unidade. Um respirar junto, num todo só. Fiquei encantada com a vasta análise da autora. Tocava num ponto na qual minha intuição me revelava, algo que o meu coração pedia. Dizia da validação científica da intuição humana, termo no dicionário definido como rápida percepção da verdade. Conhecimento instintivo ou associado com uma visão nítida e concentrada. O termo deriva do latim intuere, que quer dizer “saber espontaneamente”.

Todo reforço de Ferguson foi no sentido de trazer obras ao longo do tempo que reequilibrassem os pratos da balança da evolução do homem, que na modernidade pende para a razão, enfatizando a necessidade de atenção a dimensões fundamentais, como dizia o início do texto, e que agora fazem falta para continuarmos nossa caminhada evolutiva de aprendizado aqui na Terra.

A tendência de uma luta só por vantagens, a loucura da concorrência desenfreada, a busca de poder só material está nos levando para um abismo. Estamos carentes de reformulação, mudança de atitudes, reconsiderando nossas atenções para sermos inspirados por forças verdadeiramente espirituais baseadas na Compaixão e no Amor.

O incêndio é grande à nossa volta. Parece além do nosso alcance. Somos pequenos beija-flores com a floresta inteira pegando fogo e temos somente uma gotinha de água no bico. Mas precisamos usar essa única gotinha. Como somos únicos, no sentido de que todo ser é único, se não o fizermos, ficará sem quem faça em nosso lugar o nosso papel.

Tenho lutado para manter-me sadia, na tentativa do equilíbrio. Na temperança, um pouco disso... um pouco daquilo... venho de uma Educação Moderna com a razão no comando, portanto, quando adoeci num quadro patológico grave, precisei de ajuda psicoterapêutica e conheci a biossíntese de David Boadella, uma psicoterapia corporal que significa “Integração da Vida” e possui manobras para esse fim. Descobrir a tendência, na qual hábitos nos levam a repetição de condutas nocivas e reorientá-los num processo de reeducação pode ser um começo para reintegração do ser. No meu caso, devolveu-me a vitalidade.

Segundo Dr. Bruce Forcea, no livro “Código de Cura”, da editora Cultrix, “... a informação é o elo entre o materialismo mecanicista e o vitalismo”. É a conexão, pois, entre os sistemas de cura convencionais e os alternativos. Ele diz: “...recebi informações que permitiram evoluir para níveis mais elevados de funcionamento.” A complexidade é grande, mas necessitamos mergulhar nela.

Como compreender a própria existência sem pesquisarmos o seu funcionamento? Só nós, seres humanos, temos os dados históricos mais íntimos da nossa constituição, enquanto microespaço que somos. Precisamos assumir a pesquisa do nosso funcionamento e a nossa tendência para saber que rumo dar à nossa ação. Como compreender o que sentimos sem considerar como fomos formados? O reparo pode ser feito, se colocarmos luz onde está sombrio.

Tenho vivido, nessa tentativa, ajudada pela prática da Biossíntese, pelas agulhas da medicina chinesa, mapeando a pulsação dos órgãos e os ativando, numa dieta construída em minha cozinha com legumes, verduras e frutas frescas, na ginástica, bons pensamentos, apoiada na meditação e oração. Procuro interagir com os outros, acreditando que a ação mais preciosa que viemos conquistar é o aprendizado do amor. Essa prática que precisa ser dedicada para a nossa casa Mãe Terra, pelo criador dela, a Fonte Maior que é Deus, e no amor pelas criaturas, incluindo a nós mesmos num grande exercício de Transformação da Consciência.

Nossa gota de contribuição pode estar contida na tarefa de aprender a amar, sendo investigador, cientista de si próprio, filósofo da própria existência, artista, poeta em seu próprio palco. Trabalho árduo. Coragem para todos nós!

Encerro, deixando um poema de Juan Ramón Jimenez:


Eu não sou eu.

Sou alguém que caminha a meu lado.

Que permanece em silêncio quando estou falando.

Que perdoa e esquece quando estou irado esbravejando.

Que segue sereno, quando estou aflito sofrendo.

E que estará em pé, quando estiver morrendo

Eu não sou eu.

Eu sou alguém que caminha ao meu lado.


* * *

Cadeira 36T

Patrono: FRANCISCO ROMANO DE OLIVEIRA

RUTE ELIANA DOS SANTOS


Natural de Pindamonhangaba, filha de músico que possuía em casa uma lousa pautada para estudos. Ludicamente, essa lousa ajudou a menina Rute a chegar alfabetizada no Externato São José onde cursou o primário e aulas de piano com as irmãs franciscanas. Finalizou os estudos na escola “João Gomes de Araújo”, onde tocava escaleta na fanfarra e jogava voleibol na equipe mirim. Licenciada em Ciências Físicas e Biológicas e Educação Física. Pós-graduada em Dança Educação. Como psicoterapeuta corporal, trabalhou no SESC de São José dos Campos, FAMUSC e FASC. Especializou-se em Didática do Ensino Superior e, também, em Biossíntese - Sociedade Brasileira de Biossíntese vinculada a Heiden (Suíça). Lecionou 30 anos na Rede Estadual de Ensino. Aluna da Pró-Vida, Escola de Educação Mental criada por Dr. Celso Charuri.

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