HISTÓRIAS DE ANTIGAMENTE

    Muito antes da televisão e da internet, a contação de histórias era uma arte muita apreciada e transmitida de geração em geração. Era quase um ritual reunir a criançada ao anoitecer, logo após o jantar, para uma sessão. A avó era sempre a mais requisitada para entreter os pequenos com suas histórias de assombrações, contos e cantigas.

    Lembro-me que, na casa da minha avó paterna, Terezinha Batista, lá no bairro Mangaló, em Taubaté, havia um enorme fogão de lenha. Sentávamos perto do fogo, e, enquanto o tição de lenha ia queimando vagarosamente e iluminando o ambiente – naquele tempo só havia luz de lamparina -, minha avó contava suas histórias. Era uma aventura. Da minha avó materna, Brasilina Jesus, não tenho a sorte dessas lembranças. Ela nos deixou quando ainda éramos muito pequenos.

    Mas o tempo me deu outras avós, e uma delas, a avó Olívia de Jesus Fernandes Carvalho - “Vó Olívia” -, mãe do jornalista e acadêmico Altair Fernandes, também foi uma grande contadora de histórias. Por várias vezes, ouvi atento suas histórias e antigas cantigas.

    Lá pelos idos dos anos de 2005, mais uma vez, pedi para “Vó Olívia” contar-me algumas daquelas histórias. Aquele momento fazia com que eu me lembrasse da minha infância, da casa na roça da “Vó Terezinha”, de momentos eternizados e guardados num cantinho da memória, como o medo que tínhamos de sair da cozinha e andar pelo escuro até chegar ao quarto, pois, quase sempre, o ponto alto daqueles encontros era uma história assustadora com assombrações.

    E foi assim que, numa tardezinha de sábado, depois de um café (provavelmente acompanhado de um pastelzinho de vento ou queijo da saudosa “Tia Meire”), gravei as histórias que ela me contou, aquelas mesmas que eu já havia ouvido dela tantas vezes, com personagens da crendice popular, como o cavalo sem cabeça, o saci, bruxas, lobisomem e assombração. Também teve uma cantiga, a Casa de Antoninho.

    A “Vó Olívia” nos deixou em 2011, aos 84 anos. Agora, nesta edição da Antologia da Academia Pindamonhangabense de Letras, tenho a satisfação de deixar registradas essa história e as histórias de antigamente que a “Vó Olívia” me contou. 


CAVALO SEM CABEÇA

Duas comadres sempre iam passear, à noite, na casa dos amigos e parentes. Certo dia, como de costume, resolveram ir visitar um parente que morava mais distante. Conversa vai, conversa vem, já chegava à meia-noite quando as comadres resolveram ir embora.

Naquela escuridão do caminho, de repente, começaram a escutar relinchados de cavalos de todos os lados e que vinham na direção delas. Uma das comadres, já assustada, falou para a outra: “Comadre, vamos entrar no mato e fincar as unhas dos pés e das mãos no chão e também esconder os dentes, porque isso que vem vindo aí é cavalo sem cabeça e, se ele vir nossas unhas e dentes, vai querer nos matar!”. E assim fizeram!

Quando já não escutavam mais os relinchados, as comadres puseram-se a caminhar rapidamente para casa. Nunca mais foram passear tarde da noite.


ASSOMBRAÇÃO NA ENCRUZILHADA

José Américo, mais conhecido como Nhô Merco, morava no bairro da Sapucaia. Ele costumava sair para passear toda noite e, como era solteiro, decerto ia namorar. Sempre levava com ele uma foicinha, mais conhecida como podão.

Uma noite, lá pelas altas horas da madrugada, Nhô Merco voltava de seu passeio e, quando passou por uma encruzilhada, deparou-se com um vulto, que começou a crescer, crescer e virou um bicho enorme! E aquela coisa foi para cima dele, que, apavorado, sacou de seu podão e o levantou para se defender.

Naquela posição, ele dormiu, ficou ali congelado, parecendo uma estátua. Já estava claro, quando passou por ali um amigo de Nhô Merco e perguntou para ele o que ele estava querendo cortar ou matar naquela posição. Foi quando ele acordou assustado e contou que havia visto uma assombração durante a noite, desde então, estava ali congelado - e só não fora atacado porque a assombração tem medo de armas como o seu podão…


TRAVESSURAS DE SACI

Seu Dito, já tarde da noite, “quentava” fogo aos pés de seu fogão de lenha na cozinha e, entre um gole de café e um empurrão no tição de lenha, pitava seu velho cachimbo de fumo de rolo. Depois de passar horas ali, o fogo já estava quase no fim, quando ele resolveu ir dormir e deixou seu cachimbo, ainda com um pouco de fumo, perto do fogão.

Seu Dito foi dormir, e o saci-pererê, com pito na boca e carapuça vermelha, que já estava por ali escondido, entrou na cozinha pulando numa perna só, dando risadas e já pensando em fazer alguma malvadeza. Ele pegou o cachimbo de Seu Dito e arrancou o tubinho de fumar, trocou os lados, colocando de volta: o lado que fumava ficou perto do cachimbo, e o que estava perto do cachimbo ficou para fumar.

Quando Seu Dito acordou, pegou seu cachimbo, acendeu e, quando o colocou na boca, saiu cuspindo para todo lado, pois o sarro – resto de fumo queimado – foi tudo para sua boca.

O saci arteiro, que estava ali num cantinho olhando, dava largas risadas de Seu Dito.


LOBISOMEM

Já tarde da noite – era noite de lua cheia -, um casal com uma criança recém-nascida começava sua caminhada de volta para casa. Tinham ido visitar um parente.

No meio do caminho, o marido pediu para a mulher esperá-lo ali, que ele ia voltar à casa do parente e regressaria rapidamente. Foi o marido sumir na escuridão, que, de repente, a mulher viu um cachorro enorme sair do mato, parecia mais um homem e veio para cima dela para tentar pegar a criança! Naquela hora, ela arrancou uma manta vermelha que enrolava a criança e batia no bicho para afastá-lo dela e da criança. O bicho furioso conseguiu até rasgar um pedaço do pano, mas vendo que nada conseguia, voltou para o mato e sumiu na escuridão. Demorou um pouco, e o marido dela surgiu na escuridão. Ela, com medo daquilo tudo, contou para ele o que havia acontecido, que aquele cachorro enorme tentara atacá-la e tomar seu bebê.

O marido achou graça e deu risada, e foi quando a mulher viu em seu dente um pedaço do pano vermelho que o cachorro havia rasgado. A mulher nada falou, mas teve a certeza de que seu marido era um lobisomem! A passos largos, puseram-se a caminhar de volta para casa.


COMADRE BRUXA

Nhá Chica foi passear na casa de uma comadre. Lá chegando, conversa vem, conversa vai, começou uma chuvarada danada que não parava mais. A comadre de Nhá Chica falou para ela dormir lá mesmo, pois tinha um colchão sobrando.

E assim ficou acertado. Depois de muita prosa, já tarde da noite, as comadres resolveram ir dormir. Quando foi por volta da meia-noite, Nhá Chica começou a escutar uns barulhos e descobriu o rosto para olhar. Quando ela olhou para a cama da comadre, a mulher, tendo deixado sua roupa aos pés da cama, tinha colocado outra toda preta, juntamente com um chapéu. Nhá Chica só viu quando a comadre, que agora se vestia como uma bruxa, pegou a vassoura num canto e pela janela saiu voando.

Assim que a outra saiu, Nhá Chica deu uma olhada rápida pela janela, e a bruxa já ia voando lá por cima das árvores. Nhá Chica voltou para cama, cobriu-se toda e ficou lá, sem dormir e só querendo que amanhecesse logo.

Passado um tempo, Nhá Chica viu quando a comadre voltou, deixou de lado a vassoura, trocou de roupa e deitou-se  novamente.

Pela manhã, quando a comadre levantou, Nhá Chica já estava na cozinha. A comadre lhe pergunta: — Dormiu bem?

Nhá Chica responde que sim, toma um cafezinho e vai embora.

“Aqui não durmo nunca mais”, vai pensando pelo caminho.


*   *   *

Cadeira 28T
Patrono: ELVIRA DE MOURA BASTOS
LUIS CLAUDIO ANTUNES


    Natural de Taubaté, nasceu em 27 de maio de 1976 e reside em Pindamonhangaba desde 1987, quando veio com sua família morar no distrito de Moreira César.

Cursou o 1o Grau na Escola Estadual Ryoiti Yassuda e os dois primeiros anos do Magistério na Escola Estadual José Wadie Milad, interrompendo os estudos para ingressar no Exército Brasileiro, como voluntário, aos 17 anos.

Nas fileiras do Exército, foi responsável pelo Departamento de Informática, tendo implantado os primeiros sistemas em rede no Batalhão Borba Gato e, também, piloto de embarcação de manobra, participando de diversas missões de ajuda humanitária. Ainda no Exército, concluiu o 2o Grau na Escola Estadual Martinico Prado, em Coruputuba e especializou-se em Sistemas da Microsoft, obtendo diversas certificações de reconhecimento internacional.

Deixou as fileiras do Exército como 3º Sargento (2004). Cursou Sistema de Informação na UNIP - São José dos Campos, vindo a trabalhar com comércio eletrônico e de informática.

Desde 2007 dedica-se a duas paixões: jornalismo e fotografia. Nascia o PortalPinda, um portal de notícias sobre Pindamonhangaba, que alguns anos depois, deu lugar ao PortalR3, hoje, uma referência em jornalismo na cidade de Pindamonhangaba e região.

Como jornalista e fotógrafo, já viajou por diversas cidades e estados brasileiros e, também, por diversos países da América do Sul, Europa, Ásia e África.

Atualmente, está concluindo Comunicação Institucional na Unisul - Universidade do Sul de Santa Catarina. É membro titular da Academia Pindamonhangabense de Letras desde agosto de 2018.


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