A UM PASSARINHO
Ontem à noite, meu gato pegou um passarinho... Estava em meus afazeres quando ouvi um som gutural estridente, parecia um grito de desespero... Corri para a rua e vi somente o vulto do meu gato pulando para o telhado com o passarinho na boca... Os gritos aumentavam cada vez mais... Eram tão altos que dava para se ouvir na rua toda…
Corri novamente para dentro, tentando acompanhar aquele gemido de medo do pequeno bichinho. Eis que me deparo no meu corredor com o gato sobre a presa e esta, tentando de todas as maneiras, se salvar... batendo suas asinhas como se elas pudessem ser suficientemente fortes para espantar o seu caçador, ávido pela conquista... Mas ele lutava, independente de seu esforço ser inútil ou não…
Para sua felicidade, eu estava ali e consegui arrancar o pássaro da boca do gato sem nenhum machucado…
Acolhi-o em minhas mãos... Era lindo, o peito todo amarelo, plumagem cinza na cabeça e bico alaranjado... Sua respiração estava tão ofegante que parecia que ia explodir... O coraçãozinho tão pequeno batia numa velocidade absurda... O bico entreaberto ainda soltava uns gemidos baixinhos, tinha os olhos assustados como se já estivesse esperando a morte lenta…
Voltei com ele para a rua, tentando encontrar uma árvore ou algum outro lugar seguro onde eu pudesse colocá-lo a salvo de seus predadores, mas enquanto isso ele era meu... só meu... Cocei sua cabecinha, afaguei seu peito assustado, nos olhamos com cumplicidade.
Ter um bichinho tão frágil entre as mãos me fez pensar no valor da vida. Aquele passarinho não teria chance alguma se eu não estivesse por perto, mas mesmo assim ele gritou, lutou e não iria desistir até ser esfacelado pelo gato, que, depois de ter dado cabo de sua presa, a deixaria no chão, morta... E diante disso pensei... Como é possível ser tão frágil e tão forte ao mesmo tempo? Qual é a expectativa de vida de um passarinho? Pois ele lutava como se fosse viver cem anos…
Admirei aquele pequeno ser que estava entre minhas mãos, muito mais valente do que muitos seres humanos que não se mostram com forças para viver, reclamando de tudo ou sendo mal-humorado, sem dar valor à vida…
Enquanto esse turbilhão de ideias passava pela mente, abri um pouco as mãos, e o meu passarinho bateu as asas e voou... Voou bem alto... Alcançou novamente seu espaço, o céu, ganhando a liberdade que Deus lhe deu, e talvez agradecendo a Ele por um tempo a mais de vida…
Quanto a mim... Voei um pouco também junto desse passarinho, agradecendo a ele pela lição de vida que me transmitiu.
Cadeira 32T
Patrono: JOÃO MARTINS DE ALMEIDA
ELAINE CRISTINA DOS SANTOS
Pindamonhangabense, formada em Letras e Especialista em Literatura Brasileira pela Universidade de Taubaté. Mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC – SP. Desde 2017 é doutoranda em Literatura de Língua Portuguesa na Universidade de Coimbra - Portugal.
A paixão pela Literatura é um tesouro encontrado na infância, nas leituras de histórias imaginárias, que ganhavam vida quando lidas. Esse gosto a levou a seguir carreira na área de Letras. Acredita que os textos ficcionais são capazes de sensibilizar e de criar questionamentos, por isso a literatura se tornou sua ferramenta de trabalho.

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