SOBRE CARTAS DO SONHO DO POVO E O CORAÇÃO DO CANTOR
O cancioneiro popular transcreve diferentes aspectos da cultura de um povo: a poesia, as diferentes melodias, a paisagem da harmonia musical, a mensagem que carrega... A canção é uma obra de arte que pulsa, fala, emociona e finda nos últimos acordes: a canção é arte viva! E vive dentro de nós enquanto soa.
Essa rica manifestação de arte ganha uma linda dimensão sensorial e dialógica quando compartilhada. A canção nos une: festejamos juntos cantando alegrias, tristezas, amores, protestos, lamentos... Vibramos juntos! Em momentos especiais, muitas canções congregam as pessoas de forma tão envolvente e efusiva que quase transformam seus minutos de execução em uma plataforma de transcendência: às vezes sutilmente, às vezes como uma catarse. A canção revigora nossa memória afetiva através da poesia que resgata em nossa alma e, quando cantamos em coro, reafirma nossos traços culturais construídos em uma memória coletiva.
Por muito tempo, nossa identidade cultural teve como trilha sonora um repertório que era comum a quase toda família brasileira, bastava notar a recorrência de artistas na coleção de vinis de vários lares. A despeito de um regionalismo natural a um país continental como o Brasil, passamos décadas cantando um repertório em que nos reconhecíamos. Entretanto, a partir do crescimento da indústria fonográfica e das tecnologias afins, a música ganhou status de mercadoria de entretenimento, visto o aumento de seu potencial de consumo.
Com a democratização do acesso à produção musical nos anos seguintes, mais artistas puderam divulgar seus trabalhos de forma independente: nosso cancioneiro tornou-se imensamente diverso! Hoje, a limitada estante onde ficavam os discos de vinil da família foi substituída por enormes playlists pessoais, elas são variadas e não dão chance a nenhuma unanimidade duradoura, são muitos estilos, muitos trabalhos... O ramo da música pop é pulsante e, por conta do excesso de produções, os sucessos têm vida mais curta, ou seja, não geram memória afetiva relevante e memória coletiva tampouco!
São muitos os fatores que mudaram nossa relação coletiva e pessoal com a música. Inaugurou-se um novo modo de produzir e consumir canções populares e diante desse fato não há como evitar uma questão importante: que lugar a música terá nas memórias das futuras gerações?
Em situações de convivência, observando a reação das pessoas sobretudo à música ao vivo, é clara a forma de manifestação de prazer dos ouvintes que têm as já citadas memórias desenvolvidas. Ao se executar uma canção mais antiga, é perceptível a relevância daquela música no sorriso de pessoas mais velhas cantando em coro, dançando, fazendo comentários saudosistas... Em alguns casos, essas pessoas relembram momentos em que a música teve papel marcante em suas vidas: nessas situações, reviver canções é reviver a própria história! E não é para menos, afinal, existem estudos sobre a canção e seu poder de resgatar surpreendentemente a memória de idosos com Alzheimer, por exemplo.
A música pop e a função que ela tem em nossas vidas mudou muito: o teor poético, a riqueza harmônica, o lirismo, mas, sobretudo, a velocidade em que uma canção específica passa por nós e o quanto ela é compartilhada e cantada em grupo! É assustador esse empobrecimento da experiência musical causado pelo excesso e pela velocidade do cotidiano... Como será que a música pop atual se revelará na memória da rapaziada de agora? Será que terá a mesma relevância que teve para as gerações anteriores? Ou seja, as gerações de futuros idosos terão uma memória sócio emocional relevante ao reviverem canções que ouvem atualmente? Entenda: não se pode negar que os shows atuais continuam com grandes plateias e os artistas gozam de prestígio e notoriedade, mas a pergunta aqui é mais profunda e de caráter mais perene. Quanto estão sendo contemplados e refletidos na cultura pop atual os valores e os sentimentos mais evoluídos e elaborados do ser humano? É claro que temos ótimas produções ocorrendo neste exato momento, mas a cultura de massa ganhou ferramentas potencializadoras nunca vistas antes, e a pasteurização do que se diz popular tornou-se preocupante. Essa é a motivação do questionamento.
Ver um grande grupo sorrindo e cantando “Carinhoso”, “Asa Branca”, “Maluco beleza”, “Garota de Ipanema”, “O que é, o que é?”, “Eduardo e Mônica”... nos leva a perguntar “até quando ouviremos canções entoadas em coro por um povo que se reconheça nelas”?
Enfim, será que no futuro continuaremos a vivenciar momentos autênticos de profunda comunhão ao dividirmos certas canções?
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Cadeira 02h
Patrono: DR. ELOY DE MIRANDA CHAVES
Natural de Pindamonhangaba, formado em Matemática pela USP. A partir de 1990, começou seu “ativismo cultural”, forma como ele mesmo prefere definir sua experiência com a arte. Já projetou cenário, já produziu show, já coproduziu trabalhos musicais em home studio... Toca, canta, compõe, escreve... Compôs para uma peça teatral, tocou em festivais e shows musicais. Foi idealizador, coprodutor e mestre de cerimônias do “O Tal Sarau” (encontros ocorridos na cidade de São Paulo entre 2008 e 2012). Eventualmente, senta e escreve. Participou de concursos de poesia e publicou um conto por meio do projeto cultural “Pinda: Novos Escritores”.
É membro honorário da A.P.L. desde setembro de 2017. Apesar de seus feitos, não assume a alcunha de “artista” ou “escritor”... Apenas acredita que o labor artístico é um exercício necessário à evolução intelectual, ao autoconhecimento, à comunhão entre os homens e à transcendência.
Resumindo, é mais um defensor da sagaz máxima Gullariana: “a arte existe, pois a vida não basta”.

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