O GERMINAR DE UM CICLO!
Hoje pela manhã, ao acordar, recebi a ligação de minha neta Brenda Luz, que encontrando-se em Portugal em viagem de férias, decidiu conhecer a terra de seus antepassados, uma pequena aldeia portuguesa na região do rio d ́Ouro, local de origem da minha história familiar.
São Martinho de Mouros é uma vila criada pelos mouros, como diz o nome, e por romanos, como atestam os antigos arcos ali construídos durante a Idade Média. Uma vila rodeada de montanhas acolhedoras que abrigaram cristãos novos nos tristes tempos da Inquisição, fato esse comprovado pelos nomes de aves e de árvores de grande parte de seus habitantes.
Ali nasceram e viveram Rufino Pinto e Anna da Conceição Loureiro. Ambos muitos jovens, beirando entre 20 e 16 anos respectivamente, era esperado que se apaixonassem. Casaram-se e foram morar na Póvoa de Santa Eulália, uma pequena aldeia situada mais acima de São Martinho, onde possuíam algumas terras da família que, além das frutas,uvas, maçãs, peras e castanhas, cultivavam também as batatas que mantinham a renda familiar.
Rufino, acostumado pela família ao trabalho árduo da lavoura desde tenra idade, era também marceneiro, por dom e profissão, tendo já amealhado algum dinheiro com o qual foi construindo uma sólida casa de pedra, situada bem no alto do morro, onde descortina-se ainda hoje uma belíssima vista.
Anna, uma prendada menina, também afeita aos trabalhos do lar, acomodou-se rapidamente à rotina doméstica, e assim, jovens e apaixonados, no decorrer de 20 anos construíram uma linda família com 12 filhos: os gêmeos Firmino e Simplício, Angelina, Alypio, Manoel, Guilhermina, Agostinho, José, Joaquim, Olivia, Rosa e Ermelinda, e assim viveram felizes até que...
Em Lamego, cidade próxima, comemorava-se a festa da padroeira Nossa Senhora dos Remédios, e claro, Rufino, então um jovem quarentão, alegre e comunicativo, não poderia faltar à festa. Porém o problema era que a caçula Ermelinda ainda era um bebê, e Anna, com tantos filhos e cuidados, não teria como acompanhá-lo à romaria.
Em vista disso Rufino pensou até em não ir aos festejos da santa, tentou argumentar, mas, o que fazer, seus amigos todos estariam lá, e, além disso, esse foi um ano de tanto trabalho...
Na verdade, Anna não gostou nada de ficar em casa, mas ponderou, foi um ano difícil, seu homem estava mesmo a precisar de um descanso, de um pouco de diversão. Ora, deixa pra lá, Rufino foi à festa! Divertiu-se e aproveitou bastante, ah como o vinho estava bom!
Bem tarde já na madrugada, ele e os amigos caminhando alegres e cantando em coro pelo caminho voltavam para casa, quando Rufino, cambaleante, tropeça e cai batendo a cabeça em uma pedra. Assim estava escrito.
A vida tem suas razões de ser, Rufino cumpriu sua missão e plantou uma família numerosa e feliz, da qual orgulhosamente pertenço, e graças a Deus!
A vida continuou. Anna da Conceição, triste mas corajosamente enfrentou a situação e segurou a barra. Era preciso, a família necessitava dela. Os gêmeos, já rapazinhos, ocuparam o lugar do pai na lavoura e colocaram o Joaquim e o José, meninotes de 7 e 9 anos, no pastoreio das ovelhas nos montes.
O Alypio, nos seus 17 anos, tentando escapar da Primeira Guerra deflagrada em 1914, foi para os Estados Unidos, mas mesmo de lá teve cumprir o serviço militar. Porém, ambicioso e sagaz que era, dedicou-se ao trabalho durante um bom tempo, conseguindo amealhar uma boa quantidade de dólares, os quais trouxe na algibeira ao voltar para casa. Desde então, passou a ser conhecido pelo apelido de Dólar, agora era o Sr. Dólar e não mais Alypio. Tempos depois, com a persistência do trabalho nas terras e com a anuência dos irmãos que vieram morar no Brasil, acabou por tornar-se o guardião e dono das terras da família.
Manoel, a exemplo do irmão, também saiu de casa, porém mais bonachão e menos interessado em fortunas, engajou-se em um navio como tripulante e seguiu viagem por todos os portos do mundo, onde colecionava bizarras histórias e aventuras românticas em cada cidade que aportava. Foi um boêmio divertido e inveterado. Passou seus últimos anos no Brasil, ora na casa da irmã Guilhermina, ora na do irmão Joaquim, que o acolhiam com carinho em meio a suas trapalhadas existenciais. Viveu intensamente.
José casa-se em Portugal com a jovem Maria Monteiro e vem para o Brasil por volta de 1930 trazendo consigo a filha portuguesinha, a menina Alzira, e em 1932 nasce a Lourdes, a segunda filha do casal. Aqui chegando passam a morar em Santos, acolhidos pela irmã Guilhermina que lá residia junto com o marido e a filha que também se chamava Alzira. Mantiveram sempre a família unida, mesmo depois do falecimento precoce do José, vitimado pela tuberculose em forte epidemia da época, pois ainda não tínhamos penicilina nem antibióticos.
O Joaquim, que em sua tenra infância fora um pequeno pastor de ovelhas ao lado de seus irmãos menores, empenhando-se entre o curso fundamental na pequena escola do povoado e o trabalho nos campos da família na lavoura das batatas, torna-se um jovem forte, inteligente e decidido. Aos 18 anos despede-se da mãe e vem tentar a vida no Brasil. Aqui chegando, aceita o primeiro trabalho que lhe aparece e passa a trabalhar como cobrador de passagens em uma linha de bonde elétrico na cidade do Rio de Janeiro.
Ora pois vou me dar bem, pensava Joaquim, o dia todo passeando de graça pela linda cidade do Rio e ainda ganhando algum. Porém não era bem assim, o calor no Rio era insuportável para Joaquim acostumado a temperaturas mais amenas em Portugal, e ainda o salário que ganhava não era lá grande coisa em comparação à venda das batatas na terrinha. E mesmo que a letra da marchinha carnavalesca apregoasse Seu cobrador dim dim, é dois pra Ligth e um pra mim, isso não lhe dizia nada, o Joaquim era um rapaz honesto e essas falcatruas da malandragem carioca não lhe caiam bem. Assim, após um tempo volta à Portugal.
Após dois a três anos que passara na aldeia, Joaquim retorna ao Brasil. Desta vez para ficar. Porém agora não mais no Rio e sim em São Paulo, lugar de melhor clima e que lhe pareceu mais promissor financeiramente, além já de ter cá um parente.
Estava certo, realmente São Paulo era seu destino de vida, o lugar onde encontrou o amor, a família, a realização pessoal e o sucesso financeiro. Do Joaquim que encontrou a Olímpia, vem o Nelson e eu, de mim mais três, e então o Pietro e a Brenda.
Mas isso já começa uma outra história. Memórias dispersas, recordações...
Cadeira 02C
Patrono: JORNALISTA RAUL DE FREITAS
NILDA LUZ PINTO MIRANDA
Artista plástica, escritora e pesquisadora da área gastronômica, numa longa trajetória, vem interagindo com a Arte em suas diversas modalidades, tendo participado em dezenas de salões de arte oficiais e em exposições coletivas e individuais com significativas premiações.
Nilda Luz, como diretora cultural da ABRESI – Associação Brasileira de Gastronomia, Hospitalidade e Turismo participou ativamente do projeto que levou a capital paulistana em 1997 à outorga do título “São Paulo, Capital Mundial da Gastronomia”, ao lado de 43 países que compuseram a mesa das nações, no Memorial da América Latina.
Seu livro “Volta ao Mundo da Gastronomia na Cidade de São Paulo” lançado na ocasião por essa entidade, foi premiado pela Real Academia Espanhola de Gastronomia em 1998. Em 2007 publicou o livro “Brasil – Turismo Gastronômico “, e em 2014 seu livro “BRASIL - Campeão de Copa e Cozinha” destaca a riqueza do Turismo e da Gastronomia no nosso país. Posteriormente, este livro foi agraciado com o “Prix Litterature Gastronomique 2016” da Academia Brasileira de Gastronomia, colocando em relevo o versátil trabalho da sensível artista e escritora.
Memórias de uma batalhadora família portuguesa! Do apaixonado casal camponês, Rufino e Anna, veio doze filhos e de Joaquim e Olímpia veio Nelson e nossa querida acadêmica Nilda Luz!
ResponderExcluirLavouras, pastoreio, bondes cariocas, aventuras marítimas, artes plásticas... São muitas experiências que marcaram essa família durante o século XX!
E não acaba por aqui: Pietro e Brenda dão continuidade a essa bela história!
Isso é família: uma história infinita de superação e amor!