ESTÓRIAS QUE FIZERAM A HISTÓRIA

Antigamente, havia uma distinção explícita entre o que são “estórias” e o que é a história. Agora, essa diferenciação depende de contexto. Confesso que prefiro como era antes. Era mais direto, explícito. Por exemplo, muito tempo atrás, 60 anos para ser exato, minhas estórias de criança tropeçaram na história em movimento. Sem que eu percebesse moviam-se peças que se tornariam um dos mais relevantes espaços de cultura e diálogo da cidade de minhas raízes.

Minhas “estórias” eram construídas no antigo casarão de minha bisavó, dona Henriqueta Chiaradia, na avenida Coronel Fernando Prestes. Na esquina, uma leiteria, limite da independência de meus cinco anos. Mas o objeto de minhas fantasias era um Volkswagen azul claro, na época novo ainda, dirigido por minha avó, já então uma escritora consagrada com livros como “As três irmãs de Judas” e “A Roda do Inferno”, que, apesar disso, era apenas a minha avó. No calor do verão de Pindamonhangaba, ela me punha sentado ao seu lado no Volks azul (o apelido “fusca” veio anos mais tarde), e, juntos, percorríamos os caminhos da velha Pinda.

Visitávamos amigas, fazíamos compras, ela me contava histórias, e assim ia se formando uma camaradagem que durou enquanto minha avó viveu. Quando leio seu nome nas capas de livros, “Hilda César Marcondes da Silva”, apenas consigo me lembrar da “vovó Hilda”, uma pessoa de muita energia e determinação que ajudava o mundo a se mover ao seu redor. Uma alavanca, no sentido descrito por Arquimedes, que movia coisas, pessoas e instituições contra a atrofia cultural de sua terra.

Confesso que não herdei o interesse pela genealogia e a heráldica e a hermenêutica que tanto atraíram alguns tios e primos, portanto, não sei contar a história de muitos de minha família. Sei de alguns, que me foram referência e com quem convivi levado pelas mãos de minha avó. Seu irmão, Mario de Assis César, professor, estudioso de heráldica e história, além de fotógrafo amador, me introduziu na geografia da Mantiqueira, serra que tanto amava. Tia Branca de Assis César, sua irmã, casada com tio Zé, ou José Fernandes, me apresentou os saraus musicais em sua casa, onde ela, ao piano, e tio Zé, ao clarinete, me mostraram a boa música.

Minhas estórias se misturavam à história em construção. A cada dia, assistia ponto a ponto a surgir uma estrutura, uma instituição, capaz de cultivar e guardar a herança criativa de uma cidade, e ao mesmo tempo sentia, dentro de mim, crescer o prazer pelas histórias, pela música, pelos causos e conversas. Enquanto minha avó conversava com pessoas imponentes sobre coisas importantes, eu tentava imaginar como é o mundo dos adultos. Havia um que me inspirava simpatia e muito respeito, com quem eu até conversava. Minha avó o chamava com amizade de Dr. Paulo. Mais tarde completei: Dr. Paulo Emilio D’Alessandro, médico que cuidou de alguns de meus machucados.

Mas Dr. Paulo era também um polo de atividades. Sempre havia muita gente buscando seu conselho e seu saber. Com minha avó a conversa girava quase sempre em torno do sonho comum, a Academia de Letras. Nessa época, meu avô, Sebastião Marcondes da Silva, era militar da ativa e político, uma presença errante em meu cotidiano; neto primogênito, ocupei seu lugar na companhia de minha avó.

Dessas andanças, restou em mim o prazer e a curiosidade de ouvir causos e contar histórias. A semente de um amor pela palavra escrita e contada. A capacidade de viajar por linhas e entrelinhas lendo ou escrevendo.

Uma lembrança marcante de quando a APL foi finalmente fundada. Quando se olha de frente para a Igreja Matriz (onde, por muitos anos, pontificou Padre João), há uma ruela em seu lado direito. Ali ficavam os estúdios da Rádio Difusora de Pindamonhangaba. Uma tarde, chegamos, eu, minha avó e Dr. Paulo para ir à rádio, havia uma certa euforia no ar, mesmo que eu não soubesse o que significava. Minha avó sintonizou a estação no rádio do carro e me disse para ficar escutando. Também me disse para não sair do carro. Nem precisava, eu adorava ficar sozinho no carro fingindo que dirigia por estradas e caminhos incríveis.

Uma voz conhecida começou a sair do rádio, era ela, falava de coisas de adultos, era importante. Minha avó estava no rádio. Contavam para todos que agora poetas, escritores e jornalistas tinham uma nova casa na cidade. Contavam coisas de gente grande, que um dia eu certamente entenderia. Hoje eu entendo, estavam fazendo história ao deixar claro como é importante que se contem as estórias.


* * *

Cadeira 01C

Patrono: DR. JOSÉ GERALDO ALCKMIN FILHO

ADALBERTO WODIANER MARCONDES DA SILVA


Dal Marcondes (Adalberto Wodianer Marcondes da Silva) – Jornalista, 65 anos, passou por diversas redações da grande imprensa, como Agência Estado, Gazeta Mercantil, Revistas Isto É e Exame como repórter e editor de economia. Desde 1998, dedica-se a cobertura de meio ambiente e desenvolvimento humano. Recebeu por duas vezes o PRÊMIO ETHOS DE JORNALISMO, oferecido pelo Instituto Ethos, e é reconhecido como um “JORNALISTA AMIGO DA INFÂNCIA” pela Agência Nacional dos Direitos da Infância (ANDI), PRÊMIO ESPECIALISTA EM ÁGUA E SANEAMENTO pela revista Negócios da Comunicação em 2015/16/17/18/19/20. Foi membro do Conselho de Ética do Fórum Amazônia Sustentável e do Conselho de Sustentabilidade do Walmart Brasil. É membro do Conselho de Especialistas do Centro SEBRAE de Sustentabilidade. Especialista em Economia Ambiental e Mestre em Jornalismo pela ESPM-SP.

Comentários

  1. Gosta de ouvir estórias? Essa é uma característica que nos define desde antes dos contos de "As Mil e uma Noites" e "Decameron"; já nas paredes das cavernas contávamos nossos feitos! E assim, como várias estórias que juntas compõem uma obra maior, nossas narrativas formam o mosaico que nos identifica como comunidade, sociedade, nação e ser humano! Contar nossas vivências é preservar memória! E, de repente, de estória em estória estamos fazendo História!

    Nessa perspectiva o leitor é um desbravador do mundo!

    Trazendo mais uma tessela do mosaico pindense, o acadêmico Dal Marcondes rememora experiências com Dona Hilda César Marcondes da Silva, mulher ativa que, além de avó do nosso amigo, foi uma das fundadoras da APL. Pegue carona no fusca azul dessa consagrada escritora de nossa cidade e venha conhecer mais um pedacinho da história de Pindamonhangaba!

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