LEMBRANÇAS
Nasci em 1850.
Fincada no sopé de um morro, lá estava eu; clara, larga, hospitaleira, recebendo em cheio as matizantes luzes do pôr do sol, tal qual a flor nos albores da primavera. Era extremamente feliz.
Com minhas amplas janelas abertas de par em par, recebi, em 1883, Joaquim e Ana, dois jovens que buscaram em mim o abrigo, o ninho aconchegante para uma vida a dois.
Agasalhei-os carinhosamente entre minhas paredes grossas e fortes e protegi-os das intempéries do tempo debaixo de minhas vermelhas telhas. Vi, prazerosa, nascerem vinte e um rebentos, um a um, enchendo de choro, risos e reinações os quartos, salas e corredores. Eu os senti crescerem, dançarem ao som de violões, rezarem aos pés de São Francisco. Eu os vi enamorarem-se, partirem. À despedida de cada um, em busca da concretização de seus sonhos, era como se me arrancassem uma parte. Afinal eram também meus filhos. Sentia-os como se fossem minhas avezinhas a quem agasalhara sob meu teto com imenso carinho. Cada vez mais sozinha, minhas cores se esmaeciam pela tristeza. Ansiosa ficava quando as notícias chegavam com as cartas e mensageiros. Foi assim que soube que uns se casaram, outros estudavam e alguns habitavam novos lugares no mesmo lugar onde fui plantada – Itagaçaba. E alguns já haviam passado para o mundo da espiritualidade maior. Quantas lágrimas chorei na calada da noite, enquanto os demais buscavam o sono reparador.
Um dia, uma dor profunda, enorme, incontrolável, tomou conta de mim tal qual onda avassaladora. Joaquim e Ana atravessaram o rio levando seus pertences. Tinham escolhido outra casa para morar?! Seria ela melhor que eu? Daria a eles o conforto que eu dava? Lembrar-se-iam de minha proteção durante trinta anos? As conjecturas dissiparam-se quando os vi parados, olhando-me... olhando-me fixamente, da curva da estrada numa despedida. Foi longo aquele adeus. Naquele instante foi como se uma vida inteira passasse de relance pelos nossos pensamentos. Senti a angústia fria da separação, e algumas tábuas estalaram com força.
Mas não fiquei sozinha, nem podia ficar. Recebi nova missão, a de dar guarida ao Quinca e a toda a sua família que, continuamente vinha me visitar. Uma outra geração encontrava em mim a alegria de viver. Foi como se eu tivesse renascido. Novos risos estalavam pela sala e quartos, novas estripulias suscitavam recriminações; novos choros e cantigas trouxeram a luminosidade da vida crepitante e saudável.
Eis, porém, que, numa ocasião, em 1932... um movimento inusitado me surpreendeu, e em poucas horas sumiram todos. Não tardou para que homens uniformizados, estranhos, com armas e fuzis me invadissem. Quem eram os desconhecidos de cenho fechado, de vozes ásperas e autoritárias?! Removeram tudo, mataram animais, usaram-me e largaram-me sem o menor carinho ou consideração. Quanto tempo se passou, não sei. Suportei forte o indesejável odor vindo de restos de animais mortos. Urubus negros, esfomeados, agourentos, pousavam desavergonhadamente nas minhas janelas e telhado. A noite era escura e macabra.
Muito tempo esperei meus donos voltarem. Ao depararem comigo tão rota, tão estuprada, vi sentidas lágrimas rolando demoradamente por suas lívidas faces. Nos olhos deles havia surpresa, desolação, revolta, cansaço. Todavia uma energia indômita, brotando como semente na primavera, comandou minha recuperação. Senti meus filhos agraciando-me com a lavagem fresca e cheirosa, minhas paredes sorriam pela nova pintura, e minhas janelas deixaram o riso, a canção, a vida possuírem-me.
De verdade eu ressuscitei. Vivi novamente e meus donos também. Nada mais fácil que o dito popular: “Dê tempo ao tempo”.
Fui feliz com a leva de crianças e jovens enchendo de alarido meu interior. Fui feliz até que a doença e a morte, como onda avassaladora, rondaram-me e levaram Quinca. Eu, tão alegre, movimentada, com tantas vozes quebrando o silêncio, fui ficando vazia. Onde o pomar repleto de laranjas? Onde as festas de São Brás e as novenas e missões? Que saudade tenho das noites de luar em que cantigas sertanejas enchiam de sentimentos meus aposentos. Que saudade das histórias ao pé do fogo!
Onde foram todos? Por que me deixaram?
A desolação reina por todo lado.
O sol, a chuva, o vento, me castigam como verdugos impiedosos. Minhas janelas não mais se fecham e, envelhecidas, desgastam-se na luta contra a ventania avassaladora. O cupim voraz e impiedoso corrói minhas madeiras. O mato cresce ao meu redor e teima em penetrar pelas portas escancaradas. A noite é fria, escura, melancólica.
Onde minhas traquinas crianças? Onde meus altos, robustos e inquietos jovens tocando sua tropa, empunhando pás e enxadas ou entornando em latões o branco leite das ordenhas? Para onde foram todos? Por que me deixaram assim tão sozinha?
Sem respostas vejo os sóis e as luas passarem como o vento que sibila entre a vegetação. Só me restam as saudades de cem anos atrás quando era uma casa moça, clara, larga, hospitaleira, cheia de cores e luz.
Parece-me ainda ouvir a voz peremptória de Padrinho Joaquim.
Mas isso foi há muito tempo.
Há muito tempo!
Que penetrante e fria é a chuva que me encharca as paredes!
Que fria é a tristeza!
Que escura é a solidão!
Estou doente!
Minhas paredes desabam.
Meu telhado caiu.
Não tenho mais tempo.
ADEUS.
Pelo cerne de meus últimos pilares, ou...ço a...in...da o
ran...ger da re...e...de de
Si................
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nha
.................
..................na
Cadeira 39T
Patrono: ANÍBAL LEITE ABREU
JÚLIA SAN MARTIN BOAVENTURA
Nasceu em Pindamonhangaba aos 22 de Agosto de 1931. Filha de Agostinho San Martin Filho e de Maria Benedicta Cabral San Martin fez seus estudos no Grupo Escolar Dr. Alfredo Pujol e Ginásio Municipal de Pindamonhangaba. Com forte inclinação para o Magistério, cursou em Taubaté a Escola Normal Monteiro Lobato, diplomado-se em 1º lugar o que lhe conferiu em 1949 uma cadeira efetiva na cidade de Piquete no Grupo Escolar Dr. Antônio João. Transferida em 1950 para sua cidade natal, lecionou no Grupo Escolar Dr. Alfredo Pujol até 1980 quando se aposentou. Nessa ocasião, já era portadora do Diploma de Professor III em Letras pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Taubaté. Continuou a lecionar em várias escolas, tendo grande atuação realizada no Externato São José onde de 1982 a 1993, coordenou a área de Língua Portuguesa. Agraciada por mais uma aposentadoria, desliga-se dessa escola e oferece seus préstimos de orientadora em Língua Portuguesa à Escola André Luíz em Pindamonhangaba até 1996. Elaborou apostilas de 2ª a 8ª série adotadas nas escolas acima citadas. É de sua autoria os livros “Uma Família Espanhola”, “Entre Lembranças e Saudade”, “Pirilampos” e “Euterpe – A Fiel Depositária”, neste, a história toca o coração numa narrativa onde, na primeira pessoa, a Banda Euterpe, com seus 189 anos, conta sua própria vida mesclada aos fatos que envolveram a cidade de Pindamonhangaba.
Atualmente, dedica-se ainda à pintura a óleo sobre tela e música. Envolvida com questões da espiritualidade, dedicou-se a aulas, palestras e atividades em Centros Espíritas. Casada com Rubens Moreira Boaventura é a matriarca de uma família de 4 filhos, 6 netos e 3 bisnetos.

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