PAINEIRA FLORIDA
às margens da rodovia,
bem em frente ao presídio...
Quantos não te veem?
Quantos jamais te viram?
Beleza despercebida,
olhar que não instruíram.
A raiz de todo mal
é não ver tuas flores,
ignorar aquilo que pode
atenuar o que é dor.
Sem remédio, o desespero,
o crime, a dolosa ilusão,
os frutos preteridos, o mormaço,
o medo, a dor, a prisão.
Curioso o fato de tuas pétalas
terem a cor da roupa das mulheres
que ali vêm visitar
quem descoloriu a primavera.
Lição tardia aos detentos
é o arrependimento que corta:
trocariam tudo, eu sei,
pelo vento que tuas folhas sopra.
Paineira florida,
à beira da estrada,
pede a nosso Pai que absolva
os que não sabem de nada,
todos nós, tão marginais,
presos lá dentro ou aqui fora
a inocência e a culpa esfolhadas
naqueles que ficam e nos que vão embora.
Cadeira 27T
Patrono: DEMÉTRIO IVAHY BADARÓ
RICARDO ESTEVÃO DE ALMEIDA
Formado em Jornalismo e em Letras e pós-graduado em Língua Portuguesa. Possui cinco romances de ficção publicados: Quantas vezes eu morri (2003), O amor silenciado (2006), Rio e mar (2007), Sete dias no Reino de Etar (2010), Bob Kurt (2015 e 2021). E dois livros de poesia: A estética do amor – breviário poético (2018), em parceria com as autoras Eva Andrade e Juraci Faria, e Felizes são as árvores (2019). Desde 2009 é professor de Redação do Sistema Anglo de Ensino. Atua também como revisor de textos.

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