PAINEIRA FLORIDA

Paineira florida,
às margens da rodovia,
bem em frente ao presídio...
Quantos não te veem?
Quantos jamais te viram?
Beleza despercebida,
olhar que não instruíram.

A raiz de todo mal

é não ver tuas flores,

ignorar aquilo que pode

atenuar o que é dor.

Sem remédio, o desespero,

o crime, a dolosa ilusão,

os frutos preteridos, o mormaço,

o medo, a dor, a prisão.


Curioso o fato de tuas pétalas

terem a cor da roupa das mulheres

que ali vêm visitar

quem descoloriu a primavera.

Lição tardia aos detentos

é o arrependimento que corta:

trocariam tudo, eu sei,

pelo vento que tuas folhas sopra.


Paineira florida,

à beira da estrada,

pede a nosso Pai que absolva

os que não sabem de nada,

todos nós, tão marginais,

presos lá dentro ou aqui fora

a inocência e a culpa esfolhadas

naqueles que ficam e nos que vão embora.

* * *

Cadeira 27T

Patrono: DEMÉTRIO IVAHY BADARÓ

RICARDO ESTEVÃO DE ALMEIDA


Formado em Jornalismo e em Letras e pós-graduado em Língua Portuguesa. Possui cinco romances de ficção publicados: Quantas vezes eu morri (2003), O amor silenciado (2006), Rio e mar (2007), Sete dias no Reino de Etar (2010), Bob Kurt (2015 e 2021). E dois livros de poesia: A estética do amor – breviário poético (2018), em parceria com as autoras Eva Andrade e Juraci Faria, e Felizes são as árvores (2019). Desde 2009 é professor de Redação do Sistema Anglo de Ensino. Atua também como revisor de textos.

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