O PERFUME
Anoiteceu! Volto para casa depois de abençoado dia de trabalho. O barulho da chave no portão faz a alegria de Mozart, meu companheiro canino. Impaciente, rosnando felicidade, ele arranha a porta da sala. Ao abri-la, sinto a pressão do escarcéu comemorativo ao meu retorno. Coloco a pasta na mesa. Saltitante, o cãozinho vai comigo apanhar a coleira. Está na hora de seu passeio. Na parede da sala, o relógio marca 19h30!... Isso me faz lembrar aquela mulher... o perfume.
Já na rua, puxado por Mozart, a lembrança não me sai da cabeça... Era exatamente quando eu chegava que ouvia som de chuveiro soltando água piso abaixo. Começo a recordar como tudo começou…
Acabara de chegar quando ouvi que alguém tomava banho! Como isso?!!! Ali só moravam eu e Mozart!!! Fui até o banheiro. A cortina do box estava encostadinha para um dos lados, e o chuveiro despejava água em... em ninguém! Tratei logo de fechá-lo. Estava fechado!!! Bem fechado... Já ia lá fora verificar o registro externo quando a água foi diminuindo, se amiudou em gotas e, feito lágrimas que se recolhem, parou de cair. Por um instante, senti o ambiente levemente perfumado, mas o aroma logo desapareceu. Aquilo, sim, me deixara intrigado, o perfume... Quanto à água caindo com o registro da parede fechado, poderia ser algum problema hidráulico, pensei.
Dia seguinte, por conta de uma reunião de serviço, cheguei mais tarde à minha casa. Tinha me esquecido do ‘fenômeno’, mas, quando fui tomar banho, percebi o piso molhado. Foi impossível não fantasiar, imaginar que se tratava de algo além do natural.
Aquilo foi se repetindo dia após dia. Fui me acostumando com a estranha presença. Respeitoso e um tanto irônico, ia até a porta do banheiro e brincava: - Que mulher corajosa! Banho frio no inverno, querida?!!! Esse ‘querida’ saía meio tímido. Eu não via mulher nenhuma, mas podia senti-la. A misteriosa excitação provocada pela discreta fragrância que se espalhava pelo ambiente me dava a certeza de que se tratava de uma presença feminina. Perfume é coisa muito pessoal, mas, depois de muito tempo vivendo só, estava adorando sentir aquela fragrância floral, aquele... aquele cheiro de mulher!
Passei a dividir meu chuveiro (cada qual no seu horário) com uma “mulher invisível”... Chuveiro do qual ela nem ligava a parte elétrica, usava era só a água mesmo. Confesso, já a considerava de casa. Além de Mozart, havia agora a presença da “perfumada do banho”. Era um pouco comon há muito tempo antes. Quando eu não voltava somente para uma casa, voltava para um lar…
Tempo foi passando... Até que aconteceu aquela noite de temporal. Raios e trovoadas! Confesso, fiquei preocupado. Passava das 20 horas e nada “dela” aparecer. Fui me deitar na esperança de ouvir seu banho a qualquer momento.
A tempestade passou. Amanheceu. Ela não veio… Não veio nunca mais. Não contei isso para ninguém. Quem iria me levar a sério?
Um dia, conversando com o velho Joaquim, morador antigo do bairro, perguntei-lhe sobre a vizinhança, quem morava ali há mais tempo. O mistério começou a ser desvendado. Revelou-me o falante vizinho…
— Você é o mais novo por aqui. Antes de você, muita gente já viveu na casa onde você mora. De todos, não me esqueço das gêmeas Luzia e Luiza. Na época, duas solteironas bonitas e simpáticas. Quando elas passavam atraentes e cheirosas, deixavam um rastro de gostoso perfume. Haviam perdido os pais em um acidente. Não tinham irmãos. Uma se grudou na outra. Nunca mais se separaram. Até que aconteceu aquela desgraça…
Ajeitando-se na cadeira que trazia para a frente de sua casa todo entardecer, o velho pigarreou, deu a típica cuspida e prosseguiu:
— Era uma noite de temporal, muita água, raios e trovões. Coisa pra aterrorizar ateus e também cristãos. Apesar da tempestade medonha, a menina Luzia, uma das gêmeas, resolveu tomar seu banho. Sua irmã Luiza, e foi ela que me contou, tentou de tudo para persuadi-la a não fazer isso, mas... fora em vão. O encanamento da casa era antigo, cano de ferro preso à parede.
De repente, aquele clarão seguido de ensurdecedor estrondo! Um maldito raio atingiu um dos canos, e a garota recebeu a descarga elétrica quando, toda ensaboada, tentava abrir o registro do chuveiro para que a água lhe enxaguasse os cabelos, o corpo...
— Morreu?!!! Perguntei já associando o fato ao mistério do chuveiro, à dama invisível do banho frio e perfumado. Notando a transformação e o descontrole que se verificavam em mim, seu Joaquim pediu-me calma e concluiu:
— Não morreu de imediato. A irmã encontrou o corpo de Luzia ainda todo ensaboado e deduziu que ela deve ter recebido a descarga elétrica quando abria o registro do chuveiro para tirar a espuma. Foi um banho inacabado. Desfalecida, foi socorrida pela equipe de resgate e ficou internada em estado grave. Ficou por alguns dias em coma induzido. O choque atingiu seu sistema neurológico. Não resistiu três dias... Segundo os médicos, se sobrevivesse, haveria de conviver com graves sequelas.
Perguntei sobre a irmã, ansioso e um pouco trêmulo… Morava em bairro próximo, respondeu o velho me encarando, não entendendo meu interesse indisfarçável. Mesmo assim, insisti numa bela de uma blefada. Omiti foi a verdadeira razão. Queria buscar dados que me comprovassem que a moça morta no chuveiro havia me visitado. Falei que, coincidentemente, o jornal onde trabalhava me encarregara de escrever um artigo sobre acidentes com mortes provocadas por descargas elétricas e aquela história me interessava. Seu Joaquim me garantiu que entraria em contato com a irmã da falecida. Veria se ela estaria disposta a falar sobre o fato.
Naquela noite, fiquei imaginando... O espírito de Luzia deve ter encontrado afinal a luz. Finalmente ela deve ter conseguido tirar a espuma do corpo e por isso dera o fora. Gozado, me bateu leve sentimento de abandono. Já estava acostumado à companhia de um fantasma... de seu perfume. Depois orei muito por ela.
Passados alguns dias, foi confirmada uma visita à dona Luiza. Marcados dia e horário, lá fui eu cheio da imaginação que me é peculiar. Atendeu-me a empregada. Ciente do motivo da visita, pediu-me que entrasse e esperasse na sala. A patroa estava no banho…
Dali a pouco, senti um perfume que já havia se torna do familiar para mim... Em seguida, aparece Luiza! Atraente, envolta em negro roupão felpudo, estampado de rosas azuis. Quando passou por mim, uns grandes olhos verdes-acastanhados, sorridentes e belos, se encontraram com a timidez dos meus. Juntando os cabelos longos, negros e úmidos no alto da cabeça, num educado cumprimento, sugeriu que eu ficasse à vontade. Foi ao quarto, se vestir... Eu fiquei ali sem dizer nada, matava minha saudade de sentir novamente no ar... inesquecível e gostoso perfume…
Logo ela estava de volta à sala. Mulher de beleza madura nas feições e nos modos... Em devaneio, eu concluía: sendo a encantadora Luiza a irmã gêmea de Luzia, então era como se eu estivesse olhando para a minha visitante do banho perfumado...
Coração disparado, deixei de lado a timidez. Perguntei-lhe a marca daquela fragrância que me conquistara o olfato. Rindo, Luiza me revelou o que eu já sabia:
— Esse perfume?!!! Isso é simples sabonete. Um sabonete que minha irmã também adorava... fragrância rosa jasmim!
Cadeira 20T
Patrono: PEDRO LEÃO VELOSO NETO
ALTAIR FERNANDES DE CARVALHO
Poeta, trovador, contista e cronista é jornalista diplomado pela Universidade de Taubaté. Atua no jornal Tribuna do Norte desde 1986. Em 2005 passou a ser responsável pela editoria semanal de história do município de Pindamonhangaba.
Em 1994 foi convidado a integrar a APL – Academia Pindamonhangabense de Letras, ocupando, no quadro de membros titulares, a cadeira no 20, que tem como patrono o ministro Pedro Leão Veloso.
É membro fundador da diretoria da UBT – União Brasileira de Trovadores – seção de Pindamonhangaba, na qual é coordenador do Juventrova - concurso estudantil da modalidade poética trova anualmente realizado (desde 1994) com alunos das redes pública e particular, com o apoio da Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Pindamonhangaba.
Autor do livro “O menino que virou pipa” e coautor da obra “Voo Inaugural: poesia a oito mãos”.

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