UMA CARIOCA EM PINDAMONHANGABA
A viagem estava indo bem, dia ensolarado; desde criança ia para Pindamonhangaba, nome grande, cidade pequena, mas meu avô amava aquela cidade; para ele era a melhor do mundo. Tudo ali era mais bonito, mais rico, mais feliz. Na verdade, ele era mais feliz ali.
Já eu, carioca, acostumada ao Rio de Janeiro, não me encantava com cidades do interior. As passagens por ali eram sempre rápidas, a caminho de Campos do Jordão ou do Rio, sem tempo para ficar, só passar. O que ficava, mesmo, era o calor, muito quente, sempre muito quente.
Estava indo desta vez com minha irmã, Tereza. Havíamos decidido doar os últimos móveis da sala de jantar do Vô Balthazar, no Rio de Janeiro, para sua tão amada cidade, seu cantinho do céu. Consegui um contato, depois de alguns contratempos, e estávamos a caminho do primeiro encontro. Já havia imaginado um encontro formal e mecânico.
O contato por e-mail havia chegado na Academia de Letras da cidade. Não podia esperar uma calorosa recepção; a família havia se afastado por quase cinquenta anos, de repente, retornava com uma doação. Era, de fato, pouco crível, pensei se acreditariam que era mesmo a família de Balthazar.
Enquanto a Dutra ia passando, fiquei refletindo no encanto inexplicável do avô pela “Princesa do Norte”. Era sua cidade natal, tudo bem. Mas... só isso. Igreja, praça, coreto. Ah! Havia o Palacete. Seu pai falava que era o prédio mais lindo da cidade.
Para Balthazar era só o paraíso na terra.
O “jardim da cascata” como sempre chamou, era seu lugar favorito. Sentava-se na porta do hotel, na calçada, conversando com o dono e os passantes. Como era o nome do dono, mesmo? Não me lembro mais. Muito tempo. Lembrei-me de andar por aquela praça, mãozinha dada com o avô, onde dávamos pão para os peixes e atravessávamos a ponte, entrávamos na gruta, passeando; as lembranças se enevoavam no tempo... tão distante.
Quando chegamos, reconheci o Palacete. No alto da escadaria uma risonha moça nos esperava. Apresentações formais, fomos para a sala da Academia para um dedinho de prosa. Sentei-me com Tereza de um lado da mesa e as duas, presidente e vice-presidente da Academia ficaram em frente.
A vice-presidente, com um largo sorriso, foi logo dizendo que tinha meu avô como patrono de sua cadeira, mas não havia conseguido contato com a família na época de sua posse, ao que se seguiram explicações e relatos, e perguntas, e risadas, e, quando nos demos conta, estávamos conversando animadamente, como velhas conhecidas, já passada a tarde toda. Combinada a transferência dos móveis, fomos embora.
O tempo que se seguiu foi de encantamento. Muitas conversas eletrônicas com “as meninas” da Academia. A ideia de uma mostra do Vô, Mostra Balthazar, para a nova geração conhecer a sua obra, seguida da homenagem ao Vovô na Sessão Solene da Academia. Abraçamos as ideias das acadêmicas com entusiasmo e providenciamos o que estava ao nosso alcance. Mas o trabalho maior foi delas, das meninas, que não mediram esforços para que tudo ficasse muito lindo.
A construção da Mostra trouxe a necessária convivência, e a cada apresentação um encantamento novo, com a delicadeza, dedicação, memórias que não eram minhas surgiam, de conversas com os antigos, e saudades pelo que não havia vivido. No dia da Sessão teria que falar em nome da família, e o mergulho nas memórias profundas da infância e dos antigos tiveram que emergir.
Feita a solenidade e a Mostra, imaginei que o relacionamento iria se esvair novamente. Mas, qual. As meninas continuaram em contato, e eu também. Me surpreendi fazendo observações sobre a cidade, me localizando nas ruas, construindo minhas próprias memórias muito além do pequeno quadrilátero do meu avô. Afinal, a cidade havia crescido muito. Tornara-se um lugar desenvolvido, culturalmente efervescente. A Biblioteca e seu sarau, a Flipinda e o Festipoema, inigualável, com o troféu Balthazar, que soube existir.
Quando recebi o convite para ser membro da Academia muito me surpreendi, com a indicação e com meu próprio entusiasmo por fazer parte do lugar. Não era mais apenas a Pinda do meu avô; ela estava se tornando um pouco minha também, e eu dela.
Uma amiga, no Rio de Janeiro, me perguntou se eu estava com um relacionamento amoroso novo. Sem pensar e respondi:
– É. Estou, sim. Com Pindamonhangaba. A minha Pinda.
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Quem diria?!... Uma advogada carioca que despretensiosamente veio a Pindamonhangaba somente para doar móveis de seu avô, uma personalidade local, à Academia de Letras, reencontra uma Princesa do Norte resplandecente e encantadora! Aqui conhece novas amigas Ana e Rosana, membras da APL, e eis que surge uma paixão que sempre esteve ali, incubada no coração de uma neta querida do Sr. Balthazar. Nossa cidade e nossa gente encantaram a doutora!
ResponderExcluirNão poderia acontecer de outra forma! A paisagem cativante, a recepção calorosa e o respeito ao avô revelaram uma nova casa para nossa querida Glória Maria, aliás, foram reabertas as portas de Pinda à seleta família Godoy Moreira!
Reviver esse encontro faz nos reapaixonar por Pindamonhangaba!
SALVE NOSSO PARAÍSO TERREAL!
Você tem um episódio de reencontro inusitado também?
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Que legal saber desse reencontro com a família do professor Balthazar!
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