O SABOR INVISÍVEL
Rhosana Dalle
Cadeira 26T
Hoje decidi procurar uma receita de família que guardo nas lembranças da infância, aquela “Torta de Queijo” que minha avó fazia com tanto carinho.
Vasculhei os cadernos antigos de receitas de minha mãe, mas não a encontrei. Puxei pela memória e me vieram alguns ingredientes, o creme de leite fresco numa garrafa de vidro, o queijo branco ainda com soro num prato... Imaginei que pudesse ser uma receita corriqueira que eu acharia em qualquer site pela internet. Peguei meu celular, abri o ChatGPT e, com esperança, pedi: “Por favor, me mostre uma receita de ‘Torta de Queijo’, mais praticada nos anos 60/70”.
A inteligência artificial, rápida e eficiente, começou a vasculhar seus vastos arquivos digitais. Mas, para minha surpresa, ela não encontrou nada semelhante ao que eu me recordava. Lembrava da cozinha da casa da minha avó, dos utensílios, da farinha sobre a pedra de mármore branco, dos ovos num pote de louça ao lado, nenhuma receita mostrada era assim, nenhum registro parecido, nenhuma foto semelhante. Era como se aquela história, aquela receita, tivesse se perdido no tempo, pois não deixou rastros na nuvem ou nos bancos de dados. Mas ela existia em algum lugar, eu tinha certeza.
Tentei de novo, com variações, nomes diferentes, ingredientes que me vinham à mente. Nada! Então percebi: a receita que procuro não está em nenhum arquivo digital, nem em receitas salvas em aplicativos ou sites. Ela vive, na verdade, dentro de mim.
Cada detalhe, cada sabor, cada ingrediente que minha avó usava, o cheiro da torta assada que se espalhava pela casa, o barulho dos talheres e pratos prontos para servir, o aroma do vapor do pedaço de torta quente, estão guardados em minhas lembranças afetivas. É uma receita invisível, que só eu posso reproduzir em pensamento, porque ela é feita de memórias, de histórias, de amor, de gestos, como tomar a benção da avó ao chegar e ao sair...
Percebi que, por mais que a tecnologia avance, ela pode fazer muita coisa, mas não tudo; há sabores que só existem salvos na nossa alma, na receita invisível guardada no coração.

Crônica premiada no XI Concurso Literário Cidade de Maringá/PR 2025,
de âmbito nacional, cujo tema foi TECNOLOGIA.
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