NO AZUL ETÉREO DAS REMINISCÊNCIAS…
Altair Fernandes De Carvalho
Cadeira 20T
Localizada nas proximidades do lendário rio Paraíba, no bairro do Bosque, a igreja de Santo Antônio sempre me vem às lembranças, principalmente nos meses de maio e junho, quando ali se realizavam novenas e quermesses para festejar os padroeiros daquele lugar.
No início dos anos setentas, quando experimentávamos os ímpetos heroicos e românticos da adolescência, o local (talvez por conta de nossa visão poética) assemelhava-se a uma aldeia de pescadores, um bucólico cenário de novela.
Às vezes, divagando no azul etéreo das reminiscências, revejo as noites de quermesse e de festejos. Nas ruas enfeitadas, com destaque para a palha de arroz e as flores “bico de papagaio”, a fervorosa procissão, animada por rojões e ao som da banda Euterpe, os fiéis cumprindo o trajeto programado…
Posso até sentir o cheiro irresistível da pipoca com queijo... Relembro o locutor do alto falante revelando que vestia “uma blusa cor de maravilha” a menina para qual alguém oferecia a música “O Portão”, de Roberto. O possante “dou-lhe uma... duas... e três! do leiloeiro seu Elói…
Nesse voo pelo imenso espaço das recordações... vou pousar agora também nas proximidades do Bosque da Princesa, às margens do Paraíba... Bons tempos aqueles das travessias, braçada a braçada, alcançar a margem oposta, para nós, a ilha…
Depois, soltar o corpo à mercê da correnteza e deixar se levar até a “prainha”, parte mais arenosa do rio.
A atração do sábado era a pescaria até ao escurecer. No regresso ao bairro do Crispim, fila indiana sobre os diques, apreciando a várzea salpicada de pirilampos que pisca-piscavam feito faíscas prateadas estrelejando a relva umedecida pelo sereno do anoitecer…
À noitinha, quando verão, munidos de lanterna e uma espécie de arpão que a gente chamava de fisga, seguíamos em expedição rumo às várzeas de arroz, à caça de rãs. Caminhadas sob o luar, céu estrelado, lá íamos nós, pisando o capim molhado pela chuva da tarde, a pontual chuva de final de tarde.
Vem me à lembrança o papo de assombrações e coisas de outro mundo… enquanto vasculhávamos brejos e lagos ao som dos batráquios, grilos e das aves noturnas…
Recordo ainda das noites as muitas brincadeiras nas mal iluminadas e até nas escuras ruas do bairro. Entre elas, do esconde-esconde ou “pé na lata” (espécie de esconde-esconde mais sofisticado), utilizando como esconderijo os porões sombrios e cheio de morcegos da, na época, abandonada e desabitada Mansão Jardim, o casarão ali de nossa rua Augustin San Martin…
Bons amigos, aqueles que participavam de nossas agradáveis e saudáveis atividades. Bons companheiros, aqueles que participavam também de outras atividades, sendo estas menos aconselháveis como: “pegar cana” no canavial de seu Geraldo”, nadar nas comportas do arrozal de seu Gilberto (local que chamávamos “piscina dos pobres”), “pegar” laranja ou jabuticaba no sítio de seu Antero, cavalgar escondidos (no elo, que nem índio) nos cavalos de seu Mário Salgado…
Assim como os sábados, as tardes dos domingos, jovens tardes de domingos foram inesquecíveis... O futebol, a brincadeira dançante nas casas dos amigos. A primeira paixão, o amor... a desilusão! Os bilhetinhos apaixonados revelando amores que, na maioria das vezes, não iam além do platonismo...
Também lembram os domingos, as sessões de cinema... a matiné, quando em frente ao Cine Brasil, enquanto aguardávamos a exibição da fita, participávamos da agradável e folclórica troca de gibis.
Passados os finais de semana vinham, inexoravelmente, as segundas-feiras... A escola, as professoras do ginásio, os trabalhos escolares, as pesquisas, as comemorações cívicas, o culto ao patriotismo e... de repente estamos de volta à atualidade...
Hoje os bairros são outros e nós as lembranças daquilo que fomos. O progresso ocupou espaços de nossa infância e adolescência. A morte andou requisitando protagonistas de nossas saudosas aventuras de viver. Outros, desapareceram por aí, convocados pela irrevogável missão de batalhar por uma ocupação profissional. Também houve quem, no afã de se encontrar, acabou se perdendo. Mas, a maioria se achou, se encontrou na abençoada missão designada pelo Pai... Hoje são os netos que se multiplicam. As famílias seguem para sempre sagradas!
Bem diferentes são os tempos. Todavia, sempre haverá uma tela nos permitindo a visualização de lugares, coisas e pessoas que ficaram em algum lugar do passado. Tela que, acionada pela tecla da imaginação, nos introduz a essa incrível máquina do tempo... máquina acessível graças à poesia que reluz das reminiscências!

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