CUPIM NO MEU PIANO?

Jaqueline Bigaton
Cadeira 29T

    Sete de dezembro, dezoito horas, presente de aniversário de seu avô paterno, emoção para a mamãe, junção de ciúmes e alegria do irmãozinho, e a “bonequinha do papai” vinha para a família, e já esperando por mimos e paparicos!

   Nascia então, com os olhos para as cores e multicores; o olfato para os cheiros e odores; o paladar para sabores do comer e beber com prazer; o tato para tatear maciez, espessuras concretas lisas ou crespas, passagens largas ou justas, contornos curvos e volumosos, e linhas retas ou ondulosas; e, a escuta para sons e tons com precisão necessária para a perfeição divina! Que dádiva! Que luz imensa! Que som agradável!

   Aproximar-se da arte, com todos os tamanhos, formatos e linguagens, já que em seu corpo tatuavam-se marcas de um dia de travessuras e rebeldia, pois o tempo lhe é muito precioso. E o dormir, pelo menos oito horas, lhe é sagrado.

   Enfim, vamos ao primeiro encontro, após um percurso de uma hora e quinze minutos; uma avenida a atravessar, com larga passagem, de carros que vem e que vão; uma caminhada numa rua de subida íngreme. Um portão de ferro, alto, preto, de duas folhas; e uma campainha na parede ao lado.

   Com o olhar fixo à uma escada longa de degraus largos, a garotinha de apenas cinco anos, atenciosa e curiosa a este cenário novo, percebe um movimento no alto. Uma figura feminina se aproxima, e com um sorriso iluminado e uma voz melodiosa, diz: – Olá! A garotinha aperta a mão de sua mãe que a segurava, mostrando ansiedade e alegria ao momento tão esperado. Afinal, contava as horas, minutos e segundos para este encontro, pois a música já pulsava em seu coração.

   Então, ao adentrar-se na casa, em uma sala de estar, no canto de uma parede ao seu lado direito, havia um piano. Não apenas um piano, mas um imponente e majestoso piano. Sua cor madeira escura lhe dava um ar sisudo, mas envolvente. O impulso era imprescindível a aproximar-se, estava com a tampa do teclado aberta, e as teclas, ora pretas, ora brancas, sorriam e encantavam! A certeza de que sua história com a música se iniciaria naquele momento, agora era real. Sentou-se no banquinho do piano, a convite da sua professora e deslizou seus dedinhos a explorar sons e dedilhar melodias, como que murmurasse segredos nunca ditos ao seu mais novo amigo.

   Semanalmente, por uma hora, este encontro acontecia. Emoção e alegria pulsavam junto aos sons e tons quando no toque das teclas, em “colorido” (f, ff, p, pp) e na apresentação visual das notinhas. A cada cor, uma nota se conhecia (do- vermelho; ré – amarelo; mi- azul; fá- verde; sol- laranja; si – cinza).

   Dois anos se passaram, até que no dia de seu aniversário, a garotinha é surpreendida por seu pai ao ser presenteada com um lindo piano. Lágrimas de emoção desciam por sua face. Sorria e chorava ao mesmo tempo. Seu grande amigo agora em sua casa, na sua sala! Um amigo perfeito, e só seu; – na possibilidade apenas de dividir com seus livros.

   O tempo passou e a garotinha cresceu. Seu amigo continuou sempre ao seu lado. Tornou-se jovem, sonhadora e emotiva. Criteriosa, cerimoniosa e reservada. Criativa, mas disciplinar. Tornou-se mulher, esposa e mãe.

   Uma pausa para Platão;” A literatura, a música e a arte têm grande influência no caráter, e seu objetivo é imprimir ritmo, harmonia e temperança à alma”.

   A nossa garotinha, agora mulher, espelha toda sua verdade acompanhada por um riso, com vontade de chorar. Toda sua conquista acompanhada por confiança, esperança e fé, acompanhada por desafios, rupturas, descasos dos acasos e “pedras no caminho” que o destino promove. Mas acredita que as marcas e cicatrizes são a sinalização da sustentação do Pai no cumprimento de sua missão.

   “Cupim no meu piano?” Não! Meu piano, hoje, é digital.

   Com João (Guimarães Rosa), em afirmar... “ser feiticeiro da palavra, e estudar a alquimia do coração humano”, finalizo.



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