A MENINA NA JABUTICABEIRA

Herica Veryano
Cadeira 04H

    Quando eu era menina, fazia muitas coisas incríveis! Do alto dos meus quatro aninhos, subia em árvores, fazia bolos de lama, mergulhava em montes de areia, bebia água da chuva e conversava com a Taca, a maritaca de estimação da minha avó. Eu desenhava na terra, fingia ser do circo (equilibrista), cantava, fingia dormir para ouvir a conversa dos adultos e olhava tudo na tentativa de entender que mundo era esse em que eu tinha vindo parar.

   Das árvores, lembro-me de subir vigorosamente na goiabeira. Também subia na jabuticabeira, porém de forma delicada e vagarosa, quase flutuante. Eu sabia, desde cedo, que cada coisa e cada pessoa exigem uma forma diferente de toque e atenção. Não sabia como tinha esse discernimento. Eu apenas sabia!

   Eu era pequenina e morava na “casinha” dos fundos da casa da minha avó Biquita. Essa casa, ainda inacabada, tinha dois cômodos: sala conjugada com cozinha – conceito inovador da arquitetura contemporânea, porém comum entre famílias de baixa renda. Era um tempo bom, seco e quente, regado à simplicidade e à felicidade bruta.

   Minha avó, dona Biquita, era boa e áspera ao mesmo tempo. Da mesma forma que, aos berros, gritava meu nome para me repreender, também dizia que eu era uma bonequinha. Numa mesma frase, conseguia afirmar que eu era fogo na roupa e mais esperta que um gavião. Sinceramente, nunca soube se suas observações eram boas ou ruins. Acho que eram as duas coisas!

   Ela me olhava demoradamente quando eu brincava embaixo da jabuticabeira, meu lugar preferido de todos os tempos e de todas as vidas.

   Com as mãos na cintura, ficava na porta da cozinha me observando e dizia:

   – Para de reinar, menina!

   A jabuticabeira do quintal ficava entre a casa da minha avó e a nossa casinha. Era daquelas de fruto com casca grossa. Existe jabuticabeira de casca fina, mais doce, mas sem a mesma harmonização de sabores. As de casca grossa têm uma doçura ácida que repuxa a língua assim que o fruto explode na boca. Essa mistura de doce e cítrico é uma das melhores sensações que uma fruta pode oferecer. Elas nos preparam para as relações da vida.

   Voltando à jabuticabeira, ela tinha ares de noiva. Eu achava que, quando vinham as flores, ela estava pronta para um casório. Quando eu chegava perto, parecia que eu estava brincando no céu. Cada pétala pequenininha era um pedacinho de nuvem! A brincadeira naquele relicário era diferente de todas: havia uma certa contemplação, uma reverência que até hoje as jabuticabeiras me provocam. Ali eu não corria. Apenas tocava naquela matuta anciã – pois às vezes a jovem noiva se transformava numa velha de cabelos brancos – e a sentia. Ficava de olhos fechados, por minutos que pareciam horas, sentindo algo que até hoje não sei explicar. Uma certa saudade! Uma lembrança de algo que já vivi, mas não sei distinguir. Essa sensação eu arrastei e arrasto pela minha vida!

   Frequentemente eu era interrompida por alguém me chamando, com medo de que eu tivesse desmaiado. Mas não se tratava de mal, ao contrário, era algo bom. Sublime! Depois, vagarosamente, eu retornava à vida e refletia por longos momentos sobre diversas coisas com meu tio Sílvio, que nunca me interrompia abruptamente.

   Certo dia, eu estava deitada embaixo de um banco aos pés da jabuticabeira. O vento vinha quente da rua e entrava sorrateiro, ardendo o chão logo pela manhã.

   A Taca gritava o nome da minha mãe:

   – Elvira! Elvira!

   O dia estava agitado, e eu, escondida, tentava achar meu refúgio em meio ao caos de uma família que compartilhava pequenos espaços e três crianças: eu com quatro anos, o Henrique com seis e o Hudson, recém-nascido. Ali, deitada, percebi que o silêncio se fortalecia ao ponto de eu ouvir o ruído dentro do meu ouvido, aquele barulho interno que só o silêncio enlouquecedor é capaz de produzir. A Taquinha também se calou. Foi então que saí do meu esconderijo e percebi que não havia mais ninguém ali. Eu havia sido abandonada? Diversas vezes esse sentimento vinha à minha mente. Porém, eu aproveitava a solidão, que aos poucos se transformava em solitude, algo que aprecio até hoje.

   Lembro-me de comer muita goiaba e bicho de goiaba. Lembro-me de dar mil voltas em volta da casa da minha avó, de misturar café com leite e farinha de milho e comer com açúcar. Lembro-me de deitar no sofá, de pano que esquentava a minha mão. De assistir ao Bambalalão. Depois, fui até a mangueira no fundo do quintal brinquei um pouco sozinha. Mais tarde fui no portão de frente pra rua e chamei a Zéla e a Pituca, minhas amiguinhas, para brincarem comigo. A Zela pulou o muro; a Pituca não, já que era a menorzinha da rua.

   Começou a chuviscar, a Zéla foi embora, e eu fiquei ali, sozinha.

   A noite foi chegando, e eu fui pra dentro da nossa casinha. Fiquei ao lado da cama da minha mãe chorando, sentadinha no chão. Chorei tanto que meus olhos e minha cabeça doíam só de piscar.

   Depois de um longo tempo, ouvi a Taca gritar novamente:

   – Elvira! Elvira!

   Logo ouvi a voz da minha mãe, aos berros:

   – Filhinha! Filhinha!

   Ela veio correndo e me pegou no colo. Eu chorei muito. Mais tarde brigou com todos e gritou:

   – Vocês esqueceram da Herica? Como?

   Acontece que minha mãe havia saído às pressas com meus irmãos. Os dois estavam com febre, e o mais novo convulsionava, pois estava com meningite, até então despercebida pelos médicos. O Henrique também estava doente, com uma gripe ou algo parecido. Uma tia chegou e foram de carro levar os dois ao hospital. Eu fiquei. Minha avó foi depois, de ônibus. Meus tios... bem, eu não sei onde estavam.

   O fato é que todo mundo achou que eu estava com alguém.

   Mas eu estava só comigo. Daí em diante, acostumei-me a ficar sozinha.

   Quando uma coisa dessas acontece, a gente se acostuma.

   Meus irmãos melhoraram!





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