O MIADO DE SÓCRATES

Guilherme Balarin
Cadeira 12H

Meu gato se chama Sócrates. Assim como o filósofo, ele nada sabe. Mas, ao contrário do filósofo, ele não sabe que nada sabe. Na verdade, ele se porta como se soubesse tudo. Ultrajante!

Com a pandemia, como boa parte das pessoas, tenho trabalhado em home office. Acho que, por passar mais tempo em casa, comecei a notar algumas coisas estranhas. Começou com Sócrates deixando de dormir o dia inteiro, coisa que ele sempre fazia. Começou a ficar em cantos me observando. Quando eu me aproximava ou tentava puxar assunto, ele me ignorava e ia para longe.

Um dia, voltei para casa, e a mesa estava posta. Não me lembrava de ter arrumado a mesa para a janta. Dei de ombros, certo de que havia me esquecido de ter feito aquilo, e fui fazer o jantar. Outra noite, quando fui fazer a ronda pela casa antes de deitar-me – para fechar portas e janelas, apagar luzes, colocar comida e água para o Sócrates –, eu tinha certeza de que eu faria tudo aquilo, mas, quando vi, já estava tudo feito; apenas a comida e a água do gato não estavam em seus devidos potinhos, tive que fazer apenas isso antes de ir dormir. Ainda quando devolvi o potinho cheio para Sócrates, ele ficou me encarando até que eu entrasse no quarto e o deixasse sozinho para comer.

Preocupei-me mais ainda quando acordei noutro dia e fui para a cozinha tomar café da manhã. Sócrates estava sobre a mesa e, eu juro por tudo o que quiserem que eu jure, ele segurava uma faca de manteiga apontada para mim com uma cara de bravo que eu nunca tinha visto. Demorei, admito, mas foi aí que decidi procurar ajuda. Não para mim, para Sócrates. Levei meu gato a vários veterinários, estranhamente, nenhum quis atendê-lo. Aliás, pensando bem, não é ele que é meu gato, eu que sou o humano dele.

Sócrates não gostou nada dos veterinários. Eu estava no meio de um filme, e o vi passando em direção à porta, andando sobre as duas patas traseiras. Puxava uma trouxa consigo, e reconheci algumas de minhas roupas ali dentro. Depois, ele andou até mim, com olhos sombrios, e apontou para a porta de casa. Sócrates deu apenas um miado. Entendi a ordem e acatei na mesma hora. Sempre achei que Sócrates era mudo.

Faz algumas horas que estou na rua. Não tenho perspectiva de voltar para casa. Acho melhor nem voltar para lá. Sócrates pode me receber a balas, ou pior. Se alguém souber de um lugar baratinho onde eu possa ficar por um tempo, me avise.



Comentários

  1. Um ser humano que "não sabe que nada sabe" pode ser bem irritante! Gente de fala ignorante, opiniões improvisadas, verdades absolutas: gente complicada de lidar... Gostamos de interagir com pessoas que sabem respeitar o outro e seguem normas básicas de convivência.

    Entretanto existe uma forma de imponência que aceitamos e estranhamente até admiramos: a dos nossos pets! E no quesito pompa e circunstâncias quem tem gatos sabe do que digo! Eles sabem ser graciosamente inconvenientes e espaçosos, finamente antissociais e pedantemente afetuosos!

    Nosso amigo Guilherme Balarin nos alertou sobre o gato Sócrates, um felino de ultrajantes quase humanos! O que seu bichano faria se aprendesse algo com Sócrates, o gato!?

    Agradeça o gato que tem! Ou que te tem!
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  2. Imaginei a situação, rsrs. A criarividade do Gui é fertil! Porém minha filha tem um gato, penso que deve ser parente do Sócrates, o Theodoro ou simplesmente Thor. Deve sentir-se dono da casa, pois quando está com sede pede para que ela abra a torneira e deixe um fiozinho de água caindo para saciar a sede. Não aceita beber em potinho com água parada, pensa que deve ser impura, com bactérias. Super higiênico e autoritário. Gato mini humano. Amei o texto! Parabéns!

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