PRESENTE DO SENHOR TEMPO

Juraci de Faria Condé
Cadeira 40T

    O pai não enxergava mais para fora. Só para dentro. Ele me contava tudo o que via nesse seu mundo escuro de ruas, de homens bons ou maus, de crianças sem pais nem pátrias, de jovens, adultos e velhos sem o azul do céu nos olhos, das montanhas de lixo que dia a dia devoram o lençol freático, as florestas, os bichos, a vida na terra, o fundo do mar…

    — Filha, agora o pai enxerga o silêncio, cada gota de chuva a escorrer no beiral do telhado, a flor desabrochando dentro da semente, a estrela cadente na iminência de se desprender da abóboda celeste, a magnífica engenharia dentro das colmeias, o néctar no bico do beija-flor, as cartas geográficas de cada espécie de ave, as galáxias e seus sóis, suas luas, seus planetas e estrelas. Agora, filha, o pai enxerga tudo o que é grande em tudo o que é pequeno e tudo o que é pequeno na grandeza de existir.

    Eu, menina de sete anos, ouvia e ficava maravilhada com tudo o que o pai me dizia que via com seus olhos de enxergar para dentro. Na verdade, eu queria emprestar seus olhos de enxergar por dentro tudo o que eu via por fora.

    Ele me disse que não podia emprestar os seus olhos de enxergar para dentro para ninguém, nem mesmo para mim. O pai disse também que eles tinham sido um presente que ganhara do Senhor Tempo no seu aniversário de 60 anos - e que era tão precioso enxergar para dentro que ele só poderia me emprestar o seu presente quando eu tivesse vivido muitos e muitos anos de enxergar para fora.

    Entretanto, ele me contou que agora ia precisar muito dos meus olhos de enxergar para fora, pois ele tinha muitas saudades dos passarinhos que faziam ninho nas árvores que ele havia plantado no quintal de nossa casa – a mangueira, a jabuticabeira, as laranjeiras, as goiabeiras, a parreira, os pés de figo e de mamão, a seringueira, o pé de camélia e a sua roseira querida, de rosas verdes. Tinha saudades também da chuva de verão que descia da serra lavando os centenários paralelepípedos das ruas; do colorido do casario colonial que circundava a praça; do seu velho amigo acendedor de lampiões – o Galdino, escravo alforriado das fazendas de café -, que, todos os dias, descia e subia as ladeiras de nossa pequena cidade, iluminando a noite; do nascer do sol atrás do campanário da igreja; do verde azulado do mar de Paraty quando ele atravessava o sertão a pé só para ver o mar mandar florir seus roseirais de espuma; das letras escondidas dentro de seus livros e das histórias que seus olhos de enxergar para fora haviam lido e relido para contá-las aos seus olhos de enxergar para dentro.

    Compreendi, então, que daquele dia em diante eu precisava emprestar-lhe os meus olhos de enxergar o novo no velho de tudo o que ele tinha visto e que, por mais belo que fosse enxergar para dentro, ele precisava dos meus olhos para acender os lampiões de sua cidade sem luz; ele precisava dos meus olhos para ver se a sua roseira amada tinha aberto novos botões de flor; ele precisava dos meus olhos para ler os jornais, as revistas, os livros que tanto o entretinham; ele precisava dos meus olhos para ler as correspondências bancárias e as cartas; ele precisava dos meus olhos para não perder a esperança verdinha de cada manhã.

    Em troca, o pai me contava tudo o que ele via por dentro de tudo o que eu lhe dizia estar vendo por fora. E, assim, a menina que morava dentro de mim muito cedo compreendeu que até na escuridão do mundo há luz e que, em cada fragmento de luz, incide o mistério da vida: o bem e o mal, o belo e o feio, o nascimento e a morte. Escolhi desprezar o mal, o feio e a morte em tudo o que os meus olhos de enxergar para fora vissem no mundo. Ao meu velho pai contaria apenas o que via de beleza e de bondade nas manchetes dos jornais, nas matérias das revistas, na leitura que meus olhos fariam dos seus livros e dos acontecimentos corriqueiros da vida.

    O pai, sem perceber, voltou a ser menino! Ele me contava tudo o que se lembrava da sua infância: de suas brincadeiras nos carros de bois, na tuia e no terreiro da fazenda de café em que ele havia nascido; de como seus pais vieram de navio da Itália para o Brasil cultivando o sonho de construir uma nova vida; de sua irmandade com os filhos dos escravos alforriados que, na Fazenda Santa Cruz das Palmeiras, recebiam salário pelo trabalho realizado e abrigo no coração de sua mãe; o que as crianças do seu tempo aprendiam na escola; de como ele conquistou o primeiro amor; de sua imensurável predileção pelos cavalos; de seu ingresso na Cavalaria da Força Pública de São Paulo; de tudo o que ele viveu no front da Revolução de 1932; de seus estudos e de sua obstinada dedicação à Medicina Homeopática; de tudo o que ele viu no mundo com os seus olhos de enxergar para fora.

    Eu, menina do primeiro ano de grupo, só deixava a companhia do meu velho pai na hora de ir para a escola. Na volta, entrava correndo em casa para tomar-lhe a bênção e saber tudo o que ele tinha visto na minha ausência. O pai me contava cada história mais bonita do que a outra. Foi quando eu tive a ideia de fazer um livrinho com as folhas do meu caderno: costurei com agulha e linha para que elas não se perdessem umas das outras e, sem que o pai pudesse imaginar, depois que ele ia se deitar, eu escrevia as histórias que ele me contava. Escondia os livrinhos numa caixa encapada com papel de presente dentro da escrivaninha da sala.

    O pai não via com seus olhos de enxergar para fora o tesouro com que seus olhos d
e enxergar para dentro haviam me presenteado. O pai só via o que os meus olhos de enxergar para fora lhes contava. Aqueles caderninhos, costurados um a um, guardavam a história de vida do pai-menino sozinho no mundo (seus pais faleceram antes de ele completar sete anos de idade), de suas artes, de seus sonhos, de suas lutas, de suas conquistas!

    Hoje, esses meus primeiros livrinhos guardam as marcas do tempo: a letrinha miúda da menina quase desapareceu no grafite do lápis entre as manchas amareladas do papel. Mesmo que o tempo apague completamente aqueles registros da história de meu velho pai, n’algum lugar do meu coração permanecem intactas as histórias que os seus olhos de enxergar para dentro escolheram para me contar... São histórias felizes, do seu tempo de menino e de jovem militar, dos bons livros que leu, das pessoas que ele aconselhou, dos doentes a quem ele aliviou as dores do corpo e as da alma com as homeopatias do Dr. Murtinho Nobre e do Dr. Alberto Seabra; do caminho de bondade que ele desbravou em todos os lugares que a vida o levou.

    As histórias que o meu velho pai me contou com os olhos de enxergar para dentro eu pretendo, um dia, contar a muitos outros olhos de enxergar para fora. Espero apenas a autorização do Senhor Tempo, que até hoje ainda não me presenteou com um par de olhos de enxergar o silêncio, a canção da estrela cadente, o amor que hoje move as cordas e os ponteiros do sexagenário relógio daquela menina que teve a graça de ter um pai que escolheu, na luz de tudo o que ele via, contar-lhe apenas a poesia da vida.




Comentários

  1. Ah... A poesia é uma dádiva!

    Um poeta disse que uma das coisas mais importantes para a inspiração é saber "ver como se fosse a primeira vez", o viço do olhar da criança transforma toda descoberta em beleza!

    Vamos envelhecendo e o prazer estral começa a dividir espaço com a reflexão sobre o que vemos, num ato de conhecimento e autoconhecimento. Começamos a olhar para dentro.

    Tanto esse "olhar para o novo" como o "olhar para dentro" são atitudes motivadas por uma dúvida legítima sobre o que nos cerca, cheia de respeito e curiosidade.

    Talvez a dúvida seja a dádiva-mor, pois ela começa pelos sentidos!

    Nossa acadêmica Juraci de Faria Condé nos trouxe um belo relato sobre os olhos de enxergar para fora e os olhos de enxergar para dentro.

    Você pratica o olhar da sua criança? Você exercita os olhos de "enxergar para dentro"? COMENTE e COMPARTILHE!

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