UMA ESCOLA FEITA DE AMOR: O LEGADO INESQUECÍVEL DA TIA VÂNYA E DO COLÉGIO MESTRE
Vânya Dulce D’Arace Maciel sempre teve paixão pelo aprendizado. Quando pequena, lecionava para suas bonecas e amigos. A primeira escola a frequentar foi o Jardim de Infância Santa Terezinha. “A dona Nini Salgado (professora do Jardim de Infância) me inspira, tudo que eu fiz lá eu me lembro”, relembra Vânya. Após finalizar o Ensino Médio, na época chamada de escola normal, em que os alunos saíam direcionados para a carreira docente, abriu sua própria escola, o Jardim de Infância Branca de Neve, em 1968.
Nascida em Pindamonhangaba e filha única de pais professores, Dulce e Rômulo D’Arace, sempre contou com o apoio deles. Mesmo com a morte do pai aos sete anos, Vânya revela ter “flashs da vida” com o pai, que a ensinou a escrever o seu nome, com “Y” e o chapeuzinho no “A”. A mãe costumava dizer que a filha tinha espírito de liderança, uma grande qualidade para ser professor, e a acompanhou até o início da abertura da escola.
Sem ter medo do que poderia enfrentar e sempre positiva, Vânya não mediu esforços para alcançar seus objetivos. “Eu me formei em dezembro de 1967 e, em quatro de março de 1968, abri a escola, com cara e coragem. No fundo da minha casa, tinha o escritório do papai, então ajeitei a sala e abri a escola, sem ter mobiliário.” Apenas uma aluna matriculada e três vizinhos, foi assim que a escola começou; no final da primeira semana, havia sete alunos matriculados.
Como toda garota, ela ama os contos de fadas e as princesas, e isso acabou influenciando na decisão do nome da escola. “Eu era jovem, tinha 20 anos e sete alunos, eu era a própria Branca de Neve com seus anões”, explica Vânya.
Anos mais tarde, o Jardim de Infância Branca de Neve viria a se chamar Colégio Mestre. “O nome mudou porque era uma das primeiras pré-escolas da cidade, por isso o Mestre, e Colégio porque mamãe usava esse termo.” Apesar da troca de nome, a referência ao conto da Branca de Neve continuou intacta.
Apesar de ter seguido a carreira dos sonhos, Vânya possui alguns arrependimentos. “Não terminei o curso de Pedagogia, eu podia ter voltado, mas não tive mais oportunidade, então eu não assinava como diretora da minha escola, sempre foi uma tia minha, depois passou a ser uma amiga.” Mesmo sem o diploma, seu currículo é repleto de cursos, além da especialização em pré-escola. Outro arrependimento foi de nunca ter sido bailarina, mas isso Vânya recompensa sendo sempre delicada e atenciosa, como uma bailarina deve ser.
O amor da Branca de Neve por seus anões é enorme, e com o coração repleto de carinho e empatia, ela sempre encarou a responsabilidade de dirigir a escola. “Criança é uma brincadeira levada a sério, sempre fui muito honesta com os pais, eles precisam saber de tudo que a criança demonstra”, revela a diretora.
Caroline Fernandes conheceu o Colégio quando tinha 10 anos, ao acompanhar sua avó nos “chás da vovó”, pois sua prima estudava lá. Anos depois, sua filha, Analú, estudou no colégio. “A tia Vânya me recebeu quando estava fazendo estágio de Pedagogia e acolheu minha filha; é admirável quando uma professora não perde seu brilho no olhar e seu gosto de ensinar.”
Para Vânya, a educação tem um papel importantíssimo na vida do ser humano, e quem pensa em seguir carreira tem que ter paciência e não deve pensar só no pagamento. “O professor jamais vai receber um valor monetário que ele merece; não tem valor que represente o trabalho do professor.”
Durante os quase 60 anos de existência, e sempre no mesmo local, muitas crianças já se formaram no Jardim de Infância Branca de Neve ou no Colégio Mestre. Inclusive eu fui “um dos anões” da carinhosa e amada ‘Tia Vânya’. Ela continua com a mesma voz suave, colocando emoção em cada palavra, como se cada frase fosse uma poesia.
O carinho que Vânya tem por cada ex-aluno e aluno é algo raro de se encontrar, e, para manter contato com eles, ela criou um grupo no Facebook, “Alunos para sempre”, em que faz questão de parabenizar as conquistas dos seus queridos anões.
Após 57 anos de dedicação e muitas histórias vividas, o Colégio Mestre encerrou suas atividades, sendo um dos colégios mais antigos de Pindamonhangaba. Mas, mesmo com as portas físicas fechadas, o que Vânya construiu permanece vivo na memória e no coração de todos que fizeram parte dessa trajetória. Foram décadas de amor, ensinamentos e afeto compartilhados entre alunos, professores e famílias. Cada criança que passou por ali carrega um pedacinho da escola em suas lembranças. O Colégio Mestre pode ter chegado ao fim de um ciclo, mas jamais será esquecido, porque escolas feitas com amor, como a da Tia Vânya, continuam existindo dentro de cada um que aprendeu sob o seu olhar doce e inspirador.

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