PAPO DE SEGUNDA
– Amiga, vamos no Bar do Ozório, na sexta?
– Quem é Ozório, amiga?
– Uai, o dono do bar aqui da rua de trás, num é? Num sei também... Mas achei que você faria outra observação.
– Qual?
– Que hoje ainda é segunda e eu já estou pensando na sexta.
– Mas você está sempre pensando na sexta. Pra você a vida deveria ser um eterno “sextouuu!”.
– E não seria maravilhoso!?
– Não!
– Why?
– Ai, para de falar ‘why’ no lugar de ‘por que?’. Você está no Brasil! No Brasiiiil. Com ‘S’! Parece uma doida excêntrica.
– Doida é você que toma tarja preta. E nem é excêntrica porque toma esses mequetrefes de farmacinha de esquina.
– Você está sendo cruel agora, amiga. Eu não tomo remédio porque quero, mas porque preciso. É uma fase difícil; mas vai passar...
– Já te falei: se fosse lá na Adalgisa, ela botava toda a sua vida no lugar. Alinhava seus cristais. Constelava seus antepassados e te livraria dessas maldições gigantes que você arrasta. Mas não. Prefere enriquecer a indústria farmacêutica, os médicos, as clínicas. Você já viu médico pobre, amiga?
– Nossa, mas você realmente é bem centrada. Deixa a sua vida na mão de uma tal de Adalgisa, com ‘S’; que cobra horrores, sem fiscalização nenhuma, sabe se lá se paga impostos –, para “alinhar” coisas que a gente sabe muito bem que nunca serão alinhadas.
– Pôxaaa, magoei agora, viu? Eu não esperava ouvir isso de você... Não esperava mesmo... Mentira! Esperava sim! Só espero essa sinceridade de você.
– Ahh, para, vai! Não quer me fazer chorar em plena segunda-feira...
– Por falar em chorar, será que esse tal de Ozório abre dia de segunda?
– Bora dar uma passadinha lá na frente pra ver!? Tomar umas e chorar até gargalhar?
– Bora!
* * * * *
Escrevente do cotidiano, Jucélia Batista é baiana, criada em Rondônia; e radicada em Pindamonhangaba desde 2008. Pós-graduada em Jornalismo Literário, acredita no poder transformador da leitura e da escrita. Escreve contos, crônicas e poemas, tendo textos selecionados em antologias do Selo Off Flip e Scortecci.
Publicou “Dias curtos – noites longas” e a obra infantil “A colher dourada”.

"Gripe cura com limão, jurubeba é pra azia"...
ResponderExcluirSegundou!!!
Nada mais providencial para uma segunda-feira que o papo descontraído e sincero entre amigas marcando o happy-hour da sexta! Nossa querida acadêmica Jucélia nos brinda com um singelo e sagaz diálogo muito recorrente entre os trabalhadores dessa nossa terra brasilis!
Calma, minha gente! A sexta sempre chega, mas, se a descompressão já se faz urgente, o remédio está dado: Bora para o Bar do Ozório (filial do Boteco do Arlindo)! Na segundona mesmo!
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Todas segundas e quintas-feiras!