O QUE É UM PROFESSOR?

 “Você já leu Ninguém solta a mão de ninguém?”, perguntou-me numa dessas noites um ex-aluno, chamado Thiago.

    Agora que escrevi “ex-aluno”, pareceu-me estranho que à palavra aluno possamos acrescer um tal prefixo. Embora seja correto, gramaticalmente falando, não me pareceu apropriado utilizar um termo que soa pôr fim à relação inicial, a de professor-aluno, como se fosse possível localizar, com precisão, o momento em que teve início e também o momento em que teria supostamente se encerrado. Não acredito que essa relação se encerre, porque não é possível mensurar o alcance das diferentes maneiras como nos afetamos em uma sala de aula e fora dela, ou quando deixamos de nos ensinar e aprender com um e outro. Agora, certamente para além de aluno, Thiago se tornou um amigo.

    “Ainda não, querido, por quê?”, respondi-perguntei ao meu aluno. “Comecei a ler, efeitos da quarentena”, explicou-me Thiago, rindo porque nunca fora declaradamente alguém interessado pela leitura.

    Estamos há pouco mais de dois meses em quarentena em Pindamonhangaba, cidade onde Thiago e eu nascemos e nos conhecemos, respeitando o distanciamento e isolamento social necessários para evitar a propagação (ainda mais) rápida do COVID-19. Aparentemente, o desenrolar monótono dos dias o fez cogitar a possibilidade de se entregar à leitura, o que me alegrou.

    “Quando terminar, me conta o que achou”.

    “Fechou”, respondeu-me.

...

    “Hoje foi o pior dia da quarentena, medo de que isso demore muito para acabar.”

    “Minha mãe tá trampando, tenho ficado na casa da minha tia, ruim demais ficar longe.”

    As mensagens que começaram a chegar me fizeram supor que o livro com que Thiago iniciou a conversa não era o assunto principal.

    Thiago foi meu aluno durante três anos, de uma das minhas turminhas preferidas. Agitados, animados, engraçados, companheiros, inteligentes, cheios de vida. Já faz cinco anos que estivemos juntos em sala de aula.

    “Longe dela especificamente?”, perguntei.

    “Sim, ela tem vindo para conversarmos às vezes, mas não é a mesma coisa”, ele disse.

    “Sei como é difícil, meu querido, também não tenho visto minha mãe, que pertence ao grupo de risco. Ela chorou muito nos primeiros dias de isolamento”, compartilhei.

    “Minha avó chora quase todos os dias, ela tá na casa da minha madrinha”, me contou.

    “Eu também quis chorar, sabe? Vou conversando com ela, fazemos vídeo-chamadas inesperadas quando bate a vontade. Conversamos um tempão”.

    “Teve um dia que não aguentei e chorei muito”,confidenciou-me.

    “Não faz mal chorar, faz bem inclusive! Não represe seus sentimentos”, aconselhei de modo muito professoral...

    “Aliás, estou aqui para sempre que precisar, viu? Podemos conversar sobre tudo, principalmente sobre o que não nos faz bem”, continuei.

...

    “Eu sei”

    “Inclusive contei só pra você isso”, enredou Thiago antes de seguirmos conversando sobre outras leituras.


*   *   *   *   *

Cadeira 11H
Patrono: Professor Vicente de Paula Salgado

JÚLIO CÉSAR AUGUSTO DO VALLE

    Professor do Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo (IME-USP) e docente do Programa de Pós-graduação da Faculdade de Educação (FE-USP). Graduado em Licenciatura em Matemática, em Pedagogia, Mestre e Doutor em Educação pela USP. De 2017 a 2020, foi Secretário Municipal de Educação e Cultura de Pindamonhangaba.

Comentários

  1. A pandemia de COVID-19 nos trouxe muitas mudanças na rotina, na forma de enxergar a vida, nos costumes,... Mas tem coisa que não muda nem diante de uma quarentena: as verdadeiras amizades carregadas de afeto, zelo e respeito. E ninguém melhor que um professor para falar sobre isso!

    Nosso acadêmico Júlio César nos trouxe o diálogo afetuoso entre um professor e um aluno que chegaram onde toda relação deste tipo deveria chegar: numa amizade verdadeira!

    Saímos da pandemia mais conectados virtualmente, porém com um círculo de relações presenciais e íntimas mais reduzido. O professor, de certa forma, continua atuando junto ao mesmo número de pessoas desde sempre, lidando com seus medos, suas dúvidas, suas descobertas, suas conquistas,... O professor é um ser em ininterrupta relação com o outro numa dinâmica que não abre espaço para a passividade.

    Afeto, zelo e respeito descrevem bem o que o magistério traz a um profissional da área da educação. O curioso é que são palavras que também definem com precisão o que compõe o maior dos sentimentos: o amor!

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