NA LINHA DE CHEGADA

    Eu, quando jovem, não me imaginava chegar aos sessenta e cinco anos. Acreditava que a velhice era um porto distante, reservado aos outros. Mas o tempo – esse corredor silencioso – foi abrindo suas portas, e cada uma delas guardava lembranças, risos, e também dores que insisti em carregar.

    Durante anos, corri com fardos pesados: as desilusões amorosas, os amores platônicos que nunca se realizaram, o desejo não vivido, o lugar que não visitei, o amigo que perdi, o beijo que não dei, o “eu te amo” que guardei por medo. Carregava tudo isso como medalhas enferrujadas, até entender que ninguém cruza a linha de chegada com o peso do passado nos ombros.

    As nossas lembranças são como um imenso salão, repleto de gavetas sem fim. Algumas têm as chaves perdidas – lá repousam as histórias que o tempo apagou, as dores que já não doem, os sonhos que serviram de ponte. Outras, quando abertas, exalam perfume de vida: a primeira conquista, o nascimento de um filho, a fé redescoberta, o amor amadurecido ao lado da companheira de tantos anos.

    Hoje, deixo esses arquivos repousarem. Prefiro a leveza da minha horta – onde colho temperos frescos para o molho que preparo aos amigos queridos. Prefiro o aroma das orquídeas e das flores que cultivo há trinta anos com a minha amada Edméa. Tudo o que fomos está ali, no perfume das ervas, no canto dos pássaros, na serenidade de uma tarde que se despede.

    Quando eu fizer a travessia do rio, sei que alguém colherá as jabuticabas, fará geleia, sentirá o aroma das flores, verá a beleza que o Criador espalhou por toda parte. Nossa casa, nosso lar – Ele nos deu para cuidarmos com gratidão, como mordomos de um jardim que não nos pertence.

    E quando a velhice enfim chegar, saberei que nada levarei. Deixarei apenas o meu aroma suave – o rastro invisível de uma vida que floresceu, amou e agradeceu.


(Inspirado no poema “Velhice”, de Bastos Tigre.)


*   *   *   *   *

Cadeira 16C
Patrono: Professor Augusto César Ribeiro

FÁBIO VILELA RIBEIRO

    Médico oftalmologista, atua em São José dos Campos, onde foi fundador da Oftalmovale; idealizador, fundador e um dos diretores do Hospital de Olhos do Vale; fundador e diretor responsável pela Associação de Médicos Cristãos; escritor e cronista em várias revistas da região; historiador da Associação de Ex-Alunos da FM de Valença – RJ e historiador da Igreja Presbiteriana Central de São José dos Campos. Autor do livro “Uma Colcha Mineira – levantamento histórico da Família Machado de Andrade no ano de seu Centenário” e do conto “Eleição no Céu” que abre seu próximo livro “CAFÉ & PIRUÁ”. É violoncelista, archethier e diretor do Coral da Igreja Presbiteriana de São José dos Campos, onde participa como Tenor.

Comentários

  1. "(...) Que a neve caia, o teu ardor não mude.
    Mantém-te jovem, pouco importa a idade;
    Tem cada idade a sua juventude!..."

    O poder da poesia é incrível...

    Nosso querido acadêmico Fabio nos falou sobre as antigas inquietudes guardadas com zelo nas gavetas do grande salão das lembranças. Enquanto repousam os vestígios do vivido, se desdobram em flores e frutos a horta de um presente vivo, cheio de sabores, amores e aromas!

    Colhamos o que nos cabe... COMENTE e COMPARTILHE!

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