ESTÁTUA

A estátua da praça foi lavada.
Lavaram sua sujeira,
tiraram-lhe o matagal,
cobriram-na de beleza.

Há tanto tempo não era limpa
que desta vez capricharam,
até as caracas dos sapatos de concreto tiraram,
além dos restos deixados pelos passarinhos,
o leito marcado pelo corpo do mendigo,
o buraco do olho, tiro ao alvo dos meninos,
tudo isso eles lavaram.

Mas o que ficou marcado
foi que, lavando-a tão fortemente,
levaram dela a memória,
apagando também a história
das marcas de mãos e rabiscos
dos que a tinham como parceira
para o sono embriagado,
pesadelos inebriados
e projetos não resolvidos.

Tiraram da estátua os segredos
dos casais que por perto se beijavam,
roubaram-lhe os inquietos desejos
daqueles que por ali se amavam.

Molharam de todos os lados
e a estátua pingava o inusitado.
Havia anos não a checavam com tanta atenção.

De longe, os velhos amigos
assistiam à cena, indiferentes,
nem imaginando que, dali,
estava ela a entender-lhes a solidão,
aqueles a quem vira
tantas vezes trapaceando
nos jogos da praça,
mexendo com a mulher alheia
e xingando de inútil a vida.

Estátua que, uma vez lavada,
não mais saberia de nada,
nem por que estava sendo polida.

Talvez até hoje ela não saiba,
nem eu, a razão de tudo aquilo,
porque passei, tempos depois, e a vi pensando

por onde andavam os velhos amigos
que não mais voltaram,
por que céus voavam os pássaros
que sempre a sobrevoavam,

“para onde levaram
    meu rosto,
depois que perdi
    o gosto
de entender por que
    motivo sério
foi que eles
    me lavaram”...

*   *   *   *   *

Cadeira 09C
Patrono: José Benedito Salgado

CARLOS AUGUSTO ABRANCHES

Jornalista, trabalhou como apresentador de telejornais e programas da Rede Vanguarda e BandVale. Formado em Música, com habilitação em violão erudito, pelo Conservatório Estadual de Minas Gerais e em Filosofia, pela Universidade Federal de Juiz de Fora. É psicanalista clínico, pela Associação Psicanalítica do Vale do Paraíba. Tem especialização em Administração de Recursos Humanos, além de MBA em Gestão de Negócios, com ênfase em Planejamento Estratégico. Na área da literatura, Abranches é autor de oito livros, três de poesia e cinco de reflexões históricas, com base em relações humanas e filosofia espiritualista.

Comentários

  1. Caminhamos gerando memórias que compõem uma ponte para o próximo instante! A cada passo essa ponte se estende no tempo definindo a nossa história... Ninguém pode perder a possibilidade de revisitar esse trajeto! Essa ponte precisa ser respeitada, caso contrário perdemos o mais importante do destino: o caminho.

    O acadêmico Carlos Abranches nos alertou para a importância identitária das marcas do tempo, ou ainda, dos vestígios de nossa história pelo caminho que construímos!

    A simples limpeza de uma estátua em praça pública pode trazer lições nesse sentido... COMENTE e COMPARTILHE! ;)

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