DOS FUROS DE LINGUAGEM DA IMPRENSA

    Tropecei – literalmente, porque não consegui avançar depois de ler – numa manchete da Folha, há alguns anos, que informava: “Não há falta de comida no sertão, afirma presidente”. Precisamente na edição de 5 de maio de 1998. A frase traz uma contradição em termos: como pode haver o que falta? Se há, não falta. Se falta, não há. Bastaria dizer: “Não falta comida no sertão...”

    O pecado não é exclusivo da dona Folha. Vejam esta outra, bem recente, observada na Internet: “Em Curitiba há falta de medicamentos e exames demoram até 2 meses”. O Estadão também avisou que “Já há falta de modelos eletroeletrônicos”, na sua edição de 22 de fevereiro de 1995.

    Manchete é uma peça de artesanato. O impacto de leitura deve ser causado pela precisão, correção e clareza informativa. Um milagre da síntese em miniatura, como diria Paulo Rónai. Por isso, descuidos como o citado acima nos conduzem ao reconhecimento do risível, no melhor sentido pregado por Henri Bergson, de que o deslize é inconsciente e que o riso é mecanismo que nos leva a uma tomada de consciência de nossos próprios vícios e erros.

    No jornalismo, nacional e mundial, há exemplos históricos. Eu mesmo soube – nunca vi a tal manchete, mas há velhos repórteres que juram ter ocorrido um caso no antigo jornal ValeParaibano, de São José dos Campos, na década de 70, em plena ditadura e no quintal do CTA – Centro Técnico Aeroespacial, sentinela militar da moral e dos bons costumes, então. Era no tempo do paste-up. Para quem não sabe o que foi isso, na operação de montagem de um jornal, as notícias eram compostas em tiras de papel que, depois de recortadas, eram grudadas com cola de sapateiro numa prancha acrílica.

    Os profissionais gráficos usavam estiletes e iam colando e montando pedaços. Depois, essas placas eram levadas para ser fotografadas e transformadas em fotolitos que viravam matriz de chumbo para impressão. Pois no transporte da placa em que estava a primeira página, a manchete era algo do gênero político-fisiológico-institucional como “Economia da região segue em céu de brigadeiro”.

    Para quem também não sabe o que quer dizer isso, é axioma nas casernas de que brigadeiro (posto da Aeronáutica equivalente ao de general, no Exército) só pilota avião com céu absolutamente limpo, sem nuvens, para não correr o risco de passar vergonha. Pois, eu dizia a respeito do que ouvi, que no transporte dessa placa, voou para o céu de brigadeiro a letra é.

    E juram os velhos repórteres que a edição foi impressa assim mesmo, por desatenção da equipe. Nunca vi tal edição, e vários dos que de pés juntos asseguraram ser verdadeira a história estão hoje na terra dos pés juntos. Não por culpa de represálias, explico depressa, mas por causa da idade e de doenças, mesmo. Talvez precisássemos consultar “macacos velhos”, ainda na ativa, como o bom Lauro Lucchesi ou o Sérgio de Paula, para nos ajudar a deslindar se o descuido houve – ou se faltou...



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Cadeira 05C
Patrono: jornalista Jannart Antônio Moutinho Ribeiro

JOAQUIM MARIA BOTELHO

    Jornalista e escritor. Comandou equipes na Revista Manchete, TV Globo, TV Bandeirantes e jornal ValeParaibano. Lecionou por dez anos na Faculdade de Jornalismo da Unitau. Foi assessor de imprensa da Embraer e do Inpe e diretor de comunicação da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo. Assinou traduções (inglês e espanhol) para grandes editoras. É autor de 12 livros. Tem artigos e contos publicados na Alemanha, Argentina e Portugal. Presidiu a UBE – União Brasileira de Escritores e atualmente é presidente do Conselho. Também é vice-presidente do IEV – Instituto de Estudos Valeparaibanos e presidente do Conselho do Instituto Ruth Guimarães.

Comentários

  1. Nunca haverá falta do que escrever nessa casa das letras! Afinal, como advertiu nosso querido jornalista Joaquim Maria Botelho, "Se há, não falta. Se falta, não há".

    Ele nos trouxe um texto sobre manchetes jornalísticas e, sobretudo, sobre furos: furos jornalísticos com seus furos de linguagem e, quem diria, até com furos da anatomia, este saindo pelos fundos... do CTA! 🫣

    Babado forte, né? Um "metafuro" memorável!

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