Destaques

DISCURSO DE INAUGURAÇÃO DA SALA BALTHAZAR DE GODOY MOREIRA

Ilma. Sra. Presidente a APL – Ana Maria Corrêa Guimarães Iadeluca,
Demais membros da mesa,
Senhoras e senhores presentes,

    Gostaria de partilhar com os senhores, hoje, algumas memórias que me ligam a Balthazar de Godoy Moreira. Confesso que as próprias não são muitas, posto que me recordo apenas de seu último ano de vida, quando eu contava com 5 de idade. Mesmo assim, em razão de seu enorme carinho e pela atenção que dedicava às crianças, todos nós o adorávamos mantendo gravado na memória o seu convívio.

    Recordo-me do vovô em uma tarde de sol, quando recolhiam as frutas para a Cooperativa Agrícola de Cotia, à qual era filiado. Memória de cheiro e sabor inigualáveis. Bonezinho branco, como sempre andava no sítio, coordenava a colheita e ensacamento realizados pelos camaradas enquanto proseavam, lembro de todos muito felizes e risonhos, uma alegria só. 

    Vovô gostava de plantar e gostava das frutas. Fazia doces inigualáveis com elas. Quando a meninada já havia dormido, lá ia ele, no fogão à lenha com muita paciência e pouco fogo, confeccionar os melhores doces em calda que minha memória é capaz de identificar, o de abóbora recordado até hoje por todos que dele provaram.

    Lembro de um dia, quando resolveram confeccionar um pequeno portãozinho que impedisse minha irmã menor de sair da casa sem uma supervisão adequada. Após uma tarde de trabalho, portão assentado, todas as crianças saíram, uma a uma, por último a menorzinha, tornando-o inútil imediatamente. Seu espírito sempre entusiasmado e educador desmanchou-se em uma gostosa gargalhada dizendo: “ninguém detém a inteligência!”

    Pois ele era assim, observava e estimulava a garotada. Penetrava em seu universo imaginário para nele desenvolver o maior potencial dos pequeninos. Estava sempre estimulando nossa criatividade. Qualquer objeto podia se transformar em um brinquedo, fosse uma caixa, um pote, um pedaço de lenha, uma latinha. Chegou a fazer, ele mesmo, alguns trenzinhos, que alegres, puxávamos com uma cordinha pelo terreiro do sítio.

    Embora sentisse as sequelas dos espasmos cerebrais que o acometeram no ano de 1960, foram 7 no mesmo dia, que tornaram dormente seu lado esquerdo, levando-o a esfregar constantemente a mão, e reduzir bastante sua produção, não perdeu a alegria, o espírito aberto, o olhar amoroso sobre tudo e sobre todos.

    Era a alma do sítio em Campos do Jordão, onde sempre caminhava com seu bonezinho branco, que antes de voltar deixava no chapeleiro da porta.

    Certa tarde, surpreendeu-nos um carro, fato raro naquela localidade então. Meus pais arrumaram as coisas correndo e fomos, no mesmo carro, para a casa do Vovô, em São Paulo.

    Ficamos sozinhos com a funcionária no apartamento dele. Para as crianças, como toda novidade, uma festa. Mas, depois fomos compreendendo, e o bonezinho branco não saiu mais do chapeleiro...

    Mas, foi no meu primeiro ano escolar que conheci o professor Balthazar.

    No meu livro didático um poema pelo Dia da Árvore, “Florescer”, abaixo do título seu nome completo.

  “Planta-se uma sementinha

    Dá isso muito trabalho?

    Nasce logo uma plantinha,

    Um caule, depois um galho...”

    Bem, a criançada toda, e até a professora, queria saber se era parente.

    Então eu comecei a compreender a grandeza da obra do Vovô, ainda que de modo muito incipiente.

    E ele plantou sementinhas, plantou muitas sementinhas.

    Plantou as sementes chamadas escolas, por acreditar fervorosamente na educação como mola propulsora do progresso e da independência das pessoas. Ele era um educador por excelência! Dedicava-se com amor, construindo escolas em cada rincão longínquo por onde esteve.

    Plantou também amigos. Sempre observando o melhor em cada pessoa, estimulando o desenvolvimento de cada um. Tinha uma palavra amável e um ouvido atento. Impossível aos que o conheceram não se lembrarem dele com carinho.

    Plantou também a paz entre os litigantes. Não poucas vezes ele foi chamado para solucionar uma contenda, apaziguar uma rixa, refazer alianças e amizades, mediar conflitos. Como dizia meu pai era “um veludo entre cristais”.

    Assim, plantou sobretudo o amor.

    Plantou amor pela leitura e pela poesia. Sempre pronto a produzir alguns versos, sobre os acontecimentos mais corriqueiros, que com isso tornava especiais. Plantou amor pela família, ensinando-nos a preservar as melhores lembranças, as melhores experiências, o melhor de nós. Por amor a família também nos ensinou a escolher a semente que não deve ser plantada. Assim, não plantou o ensino de português no Japão, quando foi convidado por aquele governo através de sua comunidade em Marília. Minha avó sempre agradecia a Deus por não terem ido, posto que logo em seguida iniciou-se a II Guerra Mundial. Plantou-nos, ainda, amor por Pinda. A sua Pinda como chamava, embora não admitisse que nenhum outro o fizesse. Não pela preguiça ou o desprezo dos que não a compreendem, mas pela intimidade dos que a amam. Era dado a apelidos entre seus amores, assim, eu era a Biluca, meu pai o Dety, minha avó a Guxa e Pindamonhangaba a sua Pinda. A sua grande musa inspiradora, e tanto que causava ciúmes em minha avó, que se queixava de sua dedicação a terra na disputa de um afeto tão distinto.

    Dizia em tom de protesto que Vovô seria capaz de fazer poema até para uma simples poça d’água, desde que estivesse em Pinda, logo ele veria um sol rubro projetado, a sombra dos sobrados, um passarinho a brincar com a água, enfim... poesia.

    Como gostava de uma brincadeira, acabou por fazer um poema apenas para os telhados de Pindamonhangaba, no qual alguns versos dizem:

“(...)E gosto de saber que nos seus pegos 

Travados de anteparas,

Ripas, caibros e vigas e tesouras

Onde se acoitam ratos e morcegos,

E pombas gemedouras

E fantasmas suindaras,

Perambulam também almas penadas

Gemendo impenitentes

No silêncio das noites sossegadas,

Arrastando sudários e correntes. (...)” 

       Era um verdadeiro pândego!

    Mas o que era da vovó era muito bem guardado. Vovô escreveu-lhe os versos mais apaixonados em Helvetia, Indaiatuba, na época do namoro, ou mesmo depois, quando pensou que partiria primeiro, e dedicou lhe “O último olhar” ou, ainda, por ocasião das bodas de prata, em “Euforia”, cujos últimos versos dizem:

“A natureza inteira, até Deus pôs-se a rir 

Com divino prazer ao me ouvir e te ouvir. 

Tudo porque eu te disse a palavra de amor, 

Terra e céu, água e sol, ar e luz, som e flor, 

Tudo se iluminou porque me ouviste enfim, 

Falar de meu amor e acreditaste em mim.”

 

    Vovó era a incentivadora de Balthazar. Entusiasmados pelas artes cênicas, entendiam ser essencial ao desenvolvimento educacional pleno das crianças. Foi em Cabrália que, ensaiando uma peça teatral, ela observou o cenário muito vazio, merecia um ou dois quadros... por não encontrarem no mercado, ela determinou que o vovô pintasse.

    E, nasceu o pintor Balthazar...

    Vovó esteve ao seu lado e foi o suporte necessário para a elaboração de sua vasta obra. Obra realizada com muito trabalho e esforço. Obra que retrata sua vida e sua alma. Quando partiu deixou-nos suas memórias e suas emoções, escritas em prosa e em versos.

    Generoso como era, não reteve em suas mãos nada que tivesse valor. Seus valores foram lançados sobre todos nós. A única coisa que guardou em sua mão até se desmanchar foi uma aliança de ferro com a inscrição “Dei ouro para o bem de São Paulo”.

    Hoje, aqui reunidos, podemos honrar sua memória e recordar sua existência e sua obra em razão do contato direto com a direção desta Academia Pindamonhangabense de Letras, e do trabalho incansável de sua querida direção organizando esta Sessão e a mostra.

    Mas, Balthazar nos deixou mais. Ele nos deixou sobretudo um legado; de amor, de honradez, de lealdade. Que este legado possa nos iluminar como um farol em meio a nossas densas trevas de valores.

    Que esta benfazeja terra de Pindamonhangaba, que encerrou seus sonhos tão plenamente, tenha esse farol como guia de amor, paz e prosperidade.

    Que ele possa iluminar especialmente a você, Rosana querida, para que sua obra seja tão profícua quanto a de seu patrono. Que aquela borboleta que saiu do casulo tão lindamente por suas mãos voe por muitas e muitas árvores e flores.

    E aqui, onde deitamos seu corpo há 50 anos atrás na terra roxa desta taba, nos reunimos, conterrâneos e familiares, para completar seu último desejo:

    “Ser reintegrado a Pindamonhangaba”.

    Obrigada


*   *   *   *   *


Cadeira 03H
Patrono: Farmacêutica Bertha Celeste Homem de Melo

GLÓRIA MARIA DE GODOY MOREIRA

    Advogada. Especialista em Direito Público, ênfase em Direito Constitucional e em Direito à Saúde. Sócia fundadora da “Godoy Moreira Advogados”. Professora universitária de Direito Constitucional. Membro da Comissão Regional Sudeste de Direito à Saúde da ABA – Associação Brasileira de Advogados. Colunista do jornal Tribuna do Norte. Arquiteta e Urbanista.

Comentários