VIAGEM INESQUECÍVEL

    Corria o ano de 1960.

    Aquela viagem de ônibus se tornara estafante. Parecia que jamais chegaria a seu destino. Eu tinha acabado de completar seis anos de vida e já conseguia entender algumas coisas que aconteciam ao meu redor, mas não compreendia totalmente o drama da minha jovem mãe, que sempre procurava disfarçar o choro.

    O barulho do motor daquele velho coletivo me irritava. Meu irmão caçula chorava no colo de mamãe, que tentava acalmá-lo com leite misturado a água; eu mesma havia presenciado o preparo da mamadeira. Meu irmão mais velho dormia no assoalho do ônibus sob a poltrona que ocupávamos. Parecia não se importar com a trepidação daquela geringonça, que trafegava há dias por aquelas estradas esburacadas.

    Através da janela, eu ficava a observar a paisagem que se descortinava verde e bela, tal qual o quadro que vira exposto na calçada de uma rua movimentada, na última cidade onde paramos. O vento açoitava meu rosto, obrigando-me a franzir o cenho, e o panorama passava rápido diante dos meus olhos, parecendo uma miragem.

    Na minha tenra idade, conseguia compreender que mamãe sofria porque estava sempre triste. Eu compreendia que meu irmão caçula estava indócil porque não matara a fome completamente. Sabia também que o nosso dinheiro havia se acabado, pois, nas paradas do ônibus à noite, já não dormíamos mais nas pensões de beira de estrada. Ultimamente, recolhíamo-nos debaixo do próprio veículo, pois não era permitido aos passageiros dormirem no interior dele. Ao amanhecer, deixávamos o local, sujos e com forte cheiro de combustível impregnado nas roupas.

    Eu sabia que meu pai não nos abandonara, apenas nos deixara no nordeste para tentar a vida pela segunda vez no sudeste. Talvez tivesse voltado a trabalhar nas colheitas de milho e algodão em Rinópolis, interior de São Paulo, onde nasci.

    Certamente, estaria esperando-nos após um ano de ausência e saudade. Eu só não compreendia os dolorosos puxões de cabelo que sofria de um jovem casal que se sentava na poltrona de trás, e também por que a boneca que eu amava tanto fora arrancada dos meus braços. Era a lembrança mais bonita que meu pai me deixara ao partir. Mamãe, indiferente aos meus soluços, obrigou-me a entregá-la a minha prima Mariinha, com a promessa de que papai compraria outra mais bonita quando chegássemos a São Paulo.

    Chorei muito, sentindo a dor de duas saudades: do meu pai e da minha boneca. Não me importava outra mais bonita, queria mesmo era ter a “Rebeca” sempre comigo. Ah!

    Que saudade do meu paizinho!

    De repente, meus pensamentos foram interrompidos pelo grito do meu irmão, que acordara assustado. Um passageiro pisara em sua cabeça ao passar pelo corredor do veículo. Esfreguei sua face avermelhada na tentativa de aliviar-lhe a dor.

    A viagem prosseguiu, e o ônibus voltou a ter problemas mecânicos. Eu já tinha perdido a noção de quantas vezes ele havia enguiçado na estrada. Mas daquela vez a situação parecia mais séria, pois estava anoitecendo, ventava, fazia frio e o local era deserto. Os passageiros reclamavam apreensivos, principalmente minha mãe, que sempre dizia que, quanto mais demorasse aquela viagem, mais necessidade passaríamos. A viagem estava prevista para durar quatro dias, e já haviam se passado oito, e o ônibus não chegara a seu destino ainda, pelos constantes problemas enfrentados na estrada.

    Enquanto o motorista e alguns passageiros tentavam consertar o veículo, outros procuravam gravetos para queimar; além de se esquentarem, o local ficaria iluminado.

    Mamãe fora até a margem de um riacho próximo lavar as últimas fraldas que ainda restavam. Ela já havia jogado quase todas pela janela do veículo em movimento: meu irmãozinho estava desidratado, e os passageiros reclamavam do mau cheiro que exalavam. Ultimamente, estava rasgando seus longos saiotes brancos para transformá-las em fraldas.

     Mamãe me orientara a tomar conta dos meus irmãos quando não estivesse por perto. Tentei acalmar Leninha, que chorava querendo acompanhá-la. Num certo momento, soltou da minha mão e correu atrás de mamãe aos berros:

    — Mãe! Mãezinha! Me espera!

    Coloquei meu irmão caçula nos braços de uma passageira e corri atrás dela, que se embrenhou rapidamente no interior do matagal. Após algum tempo, notei que estava perdida e o pavor me dominou, mais pela segurança de minha irmã do que pela minha.

    Amedrontada, chorei e vaguei por aquele lugar inóspito. Já estava escuro, o mato me arranhava, até que, exausta, procurei recostar-me numa árvore. O ruído dos bichos me fazia estremecer. Já haviam se passado algumas horas, quando de repente ouvi um choro abafado. Levantei-me, agucei a audição, andei alguns metros, e qual não foi a minha surpresa e emoção ao vê-la encolhida, recostada a uma árvore. A vontade de protegê-la fora tanta que até me esqueci do medo que sentia. Aquelas horas pareceram uma eternidade.

    Quando amanheceu, Leninha adormeceu, vencida pelo cansaço. Que saudade sentia do meu paizinho e quanta falta me fazia.

    De repente, ouvi vozes. Fiquei feliz ao ver aqueles passageiros a nossa procura. Enfim, o ônibus foi consertado e prosseguimos viagem. Tive um acesso de tosse, e uma vez mais senti os meus cabelos serem puxados com força. Tomei coragem, virei para trás e encarei o casal, esperançosa de que eles entendessem que sua atitude era desnecessária.

    Aquela viagem precisava estar prestes a terminar, senão não sei se aguentaríamos mais tempo. A cidade que se aproximava parecia ser grande e bonita, e quando o ônibus parou, pude notar, através da janela, que as pessoas comiam avidamente naquele imenso salão exclusivo para viajantes. As longas mesas e bancos eram de madeira rústica. Quase todos os passageiros já haviam descido do veículo para o almoço. Somente mamãe não se manifestara em sair. Notei seu olhar perdido e cheio de lágrimas.

    — Mamãe, nós não vamos descer para comer?

    — Tome conta dos seus irmãos, minha filha, que eu vou arranjar comida para vocês.

    Eu a vi dar a volta pelos fundos do salão. Fiquei a observar sua silhueta franzina até desaparecer... Momentos depois, ela voltou com um pequeno caldeirão nas mãos. A sua expressão era de alívio. E assim felizes matamos a nossa fome! Quando o ônibus foi fechado para pernoitarmos, fomos obrigados a descer e dormir sob ele novamente.

    Naquela noite, enquanto dormíamos, alguém me levou sem que eu despertasse. Quando acordei, fiquei apavorada, estava nos braços de uma mulher de fisionomia amedrontadora, cabelos desalinhados, dentes estragados e roupas sujas. A mulher havia me carregado por longa distância. O medo apavorou-me, pois estava entre escombros de uma construção em ruínas, no colo daquela infeliz criatura que me acalentava ternamente, afagando os meus cabelos e cantando canções de ninar. A sua expressão se tornara tão dócil, que, por um instante, senti o medo passar. Ela apertava-me nos seus braços e me beijava com ternura.

    O dia já estava amanhecendo quando resolveu tirar-me daquele lugar.

    — Vamos, filhinha, eu vou arranjar um lugar melhor para nós.

    Ao mesmo tempo em que sentia medo, também sentia pena daquela mulher. No momento em que saíamos dali, ouvimos um intenso burburinho. Eram alguns passageiros que se aproximavam munidos de varas. De repente, saltaram sobre ela, que gritava:

    — Ela é minha filhinha! Não a tirem de novo de mim!

    Fiquei aflita quando os vi querendo bater naquela pobre criatura, que havia me ninado a noite inteira em seus braços. Sem hesitar, parti em sua defesa. Abracei-me a ela num gesto de proteção. As pessoas ficaram surpresas e silenciosas.

    Mais tarde, soube que ficara louca após o rapto de sua filha ainda criança.

    A saudade que eu sentia de papai estava se tornando insuportável. E aquela viagem parecia não ter fim. Repentinamente, o motorista olhou para os passageiros e sorriu, dizendo:

    — Senhores passageiros! Graças a Deus, dentro de uma hora chegaremos a São Paulo.

    Mamãe não tinha o endereço de papai. Ele enviara-lhe um telegrama, prometendo esperá-la na rodoviária.

    Quando o ônibus parou, senti o coração parar também. Os passageiros desceram apressados e agitados. Eu olhava de um lado para outro, pois minha mãe nos contara que nosso pai se tornara policial, e eu procurava desesperadamente ver um soldado no meio da multidão. Mas, para minha frustração, não havia nenhum militar a nossa espera, e foi com pesar que vi o ônibus ficar vazio. A fome fazia doer o estômago. Então notamos que haviam esquecido uma sacola com farinha de mandioca. Foi como um banquete, uma bênção do céu! Eu e meus irmãos comemos com tanta avidez, que quase nos engasgamos. O motorista entrou novamente no ônibus:

    — Sinto muito, minha senhora, mas tenho que recolher o veículo para a garagem.

    Não havia outra alternativa senão descermos.

    Mamãe arrastou para fora do bagageiro a sua única fortuna, uma mala de roupas surradas e uma trouxa de utensílios gastos, na companhia de quatro filhos de barriga vazia; aliás, cheias de farinha.

    Amontoamo-nos num cantinho do terminal rodoviário. Não me lembro de ter visto uma rodoviária convencional, apenas vários ônibus estacionados em frente a um aglomerado de prédios altos e escuros. Anos mais tarde, soube que esse terminal era clandestino e ficava no bairro do Brás, em São Paulo.

    Estava atenta, o meu olhar percorria os quatro cantos, na esperança de ver papai. Mas as horas foram passando e continuávamos ali, tristes e chorosos, à espera de nosso pai, e, pela primeira vez, mamãe deixou transparecer todo o seu desespero e desatou a chorar. Foi então que envolvi seu pescoço e pousei minha cabeça em seu ombro, triste e pensativa.

    Eu estava decepcionada com papai, achava que ele tinha nos abandonado. Era com tristeza e mágoa que assim pensava. Perguntava-me por que papai nos esquecera, o que iríamos fazer doravante? Onde iríamos morar? Então veio a lembrança de Rebeca, e me perguntava por que mamãe doara a minha boneca? Tudo era doloroso e triste... Fechei os olhos cheios de lágrimas por alguns instantes. Quando os abri, notei uma silhueta que se aproximava. Levantei a cabeça rapidamente. O meu coraçãozinho parecia querer saltar do peito de tanta alegria, ao ver aquele soldado de braços abertos para mim, para nós...

    — Pai! Paizinho! Não tenho mais a boneca que o senhor me deu...

    O abraço do meu pai foi tão apertado que me senti sufocar de felicidade. Os rodopios deixaram-me em transe de tanta alegria. Enfim, aquele sofrimento tinha chegado ao fim. Era o começo de uma nova vida, uma nova história.

    Aos sete anos, papai me deu outra boneca, mas ela jamais substituiu a minha Rebeca.

    O tempo passou, sofremos muitas privações, até anos mais tarde meu pai se tornar oficial da polícia militar. Mesmo nos momentos mais difíceis, éramos felizes, porque permanecemos todos juntos, na alegria e na tristeza. Aos dezessete anos, voltei a União dos Palmares, Alagoas. Revi a prima Mariinha e a minha inesquecível Rebeca. Estava no fundo de um baú e lhe faltava um olho e parte dos cabelos ruivos. Mas para mim ela continuava tão linda como antes, e parecia olhar no fundo dos meus olhos e me dizer:

    — Enfim você veio me buscar, estamos juntas novamente...

* * *

Cadeira 05H

PATRONO: D.R. WALDOMIRO BENEDITO ABREU

AUDINETE ALVES DE BARROS


Natural de Rinópolis - SP, graduada em Arte pela FASC e pós-graduada em Metodologia do Ensino de Artes. Iniciou seus escritos poéticos na adolescência. Nos anos de 1970 apresentou um programa de variedades na Rádio Metropolitana Paulista em Mogi das Cruzes, onde na mesma época escreveu um enredo de tema cigano adaptado para novela radiofonizada na antiga Rádio Nacional de São Paulo.

Em 1992 mudou-se para Pindamonhangaba, onde participou de um concurso de poesias no CCI – Centro de Convivência dos Idosos, sendo classificada em 3º lugar com o poema Amazônia. Participou do Festipoema, Mapa Cultural Paulista e Talentos da Maturidade. Teve três poemas encenados no palco do Teatro Galpão e foi classificada na Fase Municipal, Regional e Estadual no Mapa Cultural Paulista 2015 com o conto “Viagem Inesquecível”, inspirado em sua própria vida.


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