O AMOR MAIOR

 Somos conduzidos por uma Força. Por uma Força amorosa; sentimos essa presença quando nos recolhemos e nos esvaziamos. Assim, conseguimos sentir a Vida que nos atravessa e sustenta.

Nos movimentos inconscientes da existência, temos infinitas possibilidades de conexão com essa Força da Vida. Nas relações afetivas, nos encontros amorosos, somos desafiados a compreender a grandeza do Amor que nos move.

Em algum momento da nossa existência, nós encontramos alguém; através de uma grande atração, de algo maior que nós, encontramos um olhar. Nós encontramos um sorriso, nós encontramos alguém que desperta em nós, às vezes de maneira sutil, às vezes de maneira arrebatadora, o mais profundo amor; nesse encontro, também visitamos o mais profundo da nossa alma, e lá encontramos também dores, feridas, o que nos aparece como falta, ressentimentos, críticas e revolta, mas também uma Força amorosa, suave, acompanhando cada instante da nossa existência.

Quando nos casamos, plenos de sonhos e expectativas, olhamos para tudo aquilo em que em algum momento acreditamos; aquilo que acreditamos preencher profundamente a nossa existência, as nossas faltas.

Olhamos para tudo, absolutamente tudo, o que à nossa frente representa a possibilidade de uma vida plena.

Nesse movimento no qual somos lançados, mais do que nos lançamos, encontramos alguém que vai realmente ao encontro de um grande aprendizado; um aprendizado que em nenhum momento da nossa existência nós de fato conseguimos, tão vasta, tão extraordinariamente encontrar.

Diante do amor, diante da existência nessa relação, nós então vivemos.

Mas estamos diante de um outro; um outro completamente diferente de nós, com outra história, outra família, uma outra grande árvore de recursos e experiências.

Nesse/a, que é completamente outro/a, nós nos encaixamos e temos a oportunidade de olhar e ver. De olhar para tudo que é nosso. De olhar para nossas feridas, de olhar para nossas dores e também de olhar para a força que vem dos nossos ancestrais. Olhar para a força que flui através do nosso pai, da nossa mãe, dos nossos avós, dos mais distantes de nós. Partes constituintes de nós mesmos. Vindas da noite dos tempos...

Há um longo tempo para que algumas feridas sejam cicatrizadas, para que sejam sanadas algumas carências, para que possamos observar e integrar alguns espaços de dor e sofrimento; para que possamos descansar no colo desse outro, dessa outra. Nesse colo, para o qual fomos lançados, as forças inconscientes são impulsionadoras dos grandes aprendizados. Ao me ferir, ao me frustrar, ao viver de maneira potente o amor; ao viver às vezes a recusa, às vezes a traição, às vezes o desencanto, a decepção, as brigas, as dificuldades; ao atravessar tantos caminhos, podemos nos reencontrar - nesse amor, nessa paixão, nesse profundo movimento da nossa alma. Mesmo nas grandes travessias e tormentas, algo em nós se move...

Em meio ao amplo movimento da Vida, em nós emerge o coroamento de tudo. Dos nossos vínculos, vêm os frutos. Os filhos...

Com os filhos, também somos movidos por essa Força. Essa Força pode ser mais ou menos inconsciente. Muitas vezes, temos a oportunidade de senti-la como pura consciência, nos momentos de silêncio amoroso com as crianças. É uma força agregadora, maior do que nós. Ela nos move.

A partir dos filhos, daqueles que irão partilhar a vida conosco e trazem a força e a sensação de que há algo de nós batendo no peito de um outro, de um ser humano que carrega algo de nós, perpetuamos o mundo e servimos a ele. Eternizamos as experiências...

Ao olhar nossos filhos, com certeza, muitas vezes, nós nos interrogamos: será que eu sabia o que é o amor? Será que eu tinha visitado esse lugar? Esse território? Será que eu já havia me perdido tão profundamente num olhar?Num pequeno olhar? Numa pequena mão? Naquele corpinho que descansa no meu peito? Que descansa no meu colo e que com força extraordinária me joga no mundo, me faz trabalhar mais, me faz dar mais, me faz ser mais?

Os nossos filhos nos fazem ser mais; nos levam a um amor maior, à percepção ampla da frágil construção humana. A experiência vasta de amar o amor.

O amor do homem, o amor da mulher. Amar mais ainda a mulher ou o homem no corpo daquela criança, na alma daquela criança, no olhar daquela criança.

Ao olharmos os nossos filhos, não é possível distinguir onde nós começamos, onde a nossa companheira, o nosso companheiro começa. Onde terminamos, onde ele termina, onde ela termina.

Não somos capazes de perceber isso. Se nos deixamos nos soltar na correnteza do pequeno olhar, somos levados a um Amor Maior. À sempre disponível abertura de flertar com um Poder maior, muito maior do que o sentimento que nos uniu. O que chega da nossa fonte: o amor pelos filhos.

É uma possibilidade maior, vasta, muito vasta de amarmos o outro que nos deu o maior presente da nossa existência, de forma ainda muito mais íntegra e intensa do que o amor do homem e o amor da mulher.

Os filhos são sempre uma possibilidade de irmos além. Eles nos convidam a reconhecer que somos um ponto de integração e diversidade; eles têm o direito de receber o amor do pai e da mãe. Convidam-nos a sermos mais generosos com o que vem de um e de outro. Convidam-nos a olhar e reencontrar o nosso pai e a nossa mãe.

Assim, seguem sendo uma possibilidade de síntese. Os filhos são uma possibilidade de olhar para a amplitude da Vida... um amor que começa muito distante e que flui sem lugar e sem tempo para escoar completamente; nos filhos, nós podemos visitar um pouco desse Amor Maior. O amor que nos convida à vida, que nos convida a sempre mais.

Quando, e se falhamos, a dor vem nos visitar. Se terminamos um casamento, se terminamos uma relação, a dor vem nos visitar.

No entanto, a família que um dia nasceu de uma força, na maioria das vezes inconsciente, mas amorosa,nunca vai terminar. Essa família será sempre a família que a vida, que a Grande Vida nos deu.

Temos, assim, um destino comum, que no arco do tempo vai se ampliar...

Através dos filhos e netos, dos nossos bisnetos e de tudo mais que cada geração permite fluir, vem o Amor Maior, que através de nós nasceu. Ele não tem começo e nem fim. Esse Amor a tudo abarca, a ele tudo pertence: os sonhos, as dores, os conflitos, as risadas, afinidades, aflições, os confrontos, aprendizados. Tudo isso constitui o tecido da vida. Render-nos a essa tecitura, sempre maior, sempre maior, é o aprendizado...

E, quando, então rendidos, concordando profundamente que assim é, nós ganhamos um bocado de liberdade. E, assim, com a cabeça erguida e os pés firmes no chão, podemos ir “ao encontro da manhã”.


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Cadeira 19T

Patrono: DR. MÁRIO TAVARES

LAUREANO GUERREIRO BOGADO


Meditante há mais de 30 anos e professor de meditação, Laureano Guerreiro Bogado é mestre em filosofia da educação e mestre em ciências da religião;

É sócio proprietário de escolas de educação básica e pré-vestibular onde implantou programas de Mindfulness e Atenção Plena para crianças e jovens, usando essas ferramentas também na capacitação de professores e gestores, trabalhando na conexão entre famílias e escola e no atendimento a crianças e adolescentes.

É autor dos livros A Educação e o Sagrado, Educar para a Condição Humana e Uma Criança de Cada Vez.

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