A RODA DO INFERNO
Trechos escolhidos e adaptados do romance de autoria de Hilda Cesar Marcondes da Silva, publicado pela Editora “Aquila” em 1964.
Fui feito de pedra e cal. Mistura de pedra e água, suor e sangue, risos alegres e gemidos torturados. A água que corre, mansa e cristalina no leito do rio, molhou a argila, transformando-a no barro de reboco. As paredes, socadas à mão de pilão, foram umedecidas pelo suor e sangue de negros escravos e de índios mansos e fiéis. Fui construído com a mistura de areias prateadas e pedregulho alvo que, rolando, cantava no fundo das águas. Dessa mistura de barro, amassado com lágrimas, sangue, esperanças e júbilos, foi que me ergui, solene e dominador, sentinela de uma enorme região, desafiando o tempo. A geração atual nada encontra de singular e interessante na estrutura que me deu feição. Não considera este solar, da fazenda das Oliveiras, nem o admite como legado santo, patrimônio de antepassados que abrigou uma raça varonil, nobre de caráter e sã de princípios.
Lá por volta dos anos de mil e oitocentos, era uma fazenda com mais de mil hectares de terra, todo o terreno muito bem plantado e aproveitado. A casa-grande era o centro de todas as atividades da fazenda. A água do rio teve papel preponderante no desenvolvimento das fazendas cafeeiras da região. À frente da casa-grande, havia o terreiro de café e, para um dos lados, completando o quadro primoroso, o moinho, cuja roda gigantesca, impulsionada pela queda d’água, movimentava a mó enorme que triturava os grãos. À queda d’água que se despenca de uma grande altura dava-se o nome de “inferno”. Portanto, à roda que se movia com o peso da água dava-se o nome singular e pitoresco de “roda do inferno”.
O coronel João Nunes Saraiva e sua esposa, D. Ludovina Carneiro Nunes Saraiva, eram os felizes e abastados proprietários da magnífica mansão das Oliveiras. O casal predestinado teve apenas três filhos. João Ricardo, o mais velho, contava naquela época, pouco mais de oito anos; Carlos Henrique, seis; e Ana Lucinda, quatro. Depois de casamento feliz, D. Ludovina sofreu a perda do esposo. Enviuvara, moça ainda, com seus três filhos para criar e uma enorme propriedade para dirigir. Depois de muito pensar, ela se decidiu, aceitando o homem que o destino lhe colocara à frente. Luís Jorge era um rapagão simpático e destemido. Aos enteados, tratava com autoridade e prepotência. João Ricardo, o mais velho, se rebelara contra o domínio do padrasto. Luiz Jorge, senhor absoluto da gorda seara, nada fazia para conquistar o respeito e a amizade dos subalternos. Abusava dos maus-tratos e da licenciosidade com que tratava os negros e raparigas. Uma noite, ao sair do catre de uma de suas negras, completamente embriagado, perdendo o rumo da casa, despencara no inferno de água, morrendo esmagado entre a engrenagem.
Uma tarde, depois da morte do padrasto, João Ricardo surgiu na fazenda, acompanhado de sua esposa e dos filhinhos. D. Ludovina não conhecia nem a nora e nem os netos. D. Ofélia, meiga e educada, fez-se agradável à sogra. Carlos Henrique, irmão de João Ricardo, casado com D. Lavínia, tiveram um único filho, Cláudio, que era vestido como um príncipe, com camisinhas de linho da Bretanha e calcinhas de veludo. A Carlos Henrique coubera, por herança, do pai, uma bela casa em um dos bairros mais aristocráticos do Rio de Janeiro. Morreu cinco anos depois de seu casamento, deixando a viúva e seu filho. D. Lavínia não perdeu tempo, transformando a rica vivenda em um
montão de moedas de ouro. João Ricardo herdara a fazenda das Oliveiras. D. Ofélia, esposa do herdeiro, se vira transformada, da noite para o dia, em rica proprietária de tão maravilhosa mansão.
Mãe Sota, a negra com seus privilégios, meio dona, meio escrava, lá estaria, esperando pela nova patroa, a intrusa que lhe tomaria a autoridade do solar. Era a escrava mais velha da fazenda. Viera da África com dois anos e ali se criara, ao lado de sinhazinha, que a tratava como irmã de criação. Mãe Sota, vou precisar de sua ajuda. Sou muito inexperiente para conduzir uma casa tão grande como esta. Gostaria que mecê continuasse a dirigi-la como fazia antes, no tempo de minha falecida sogra. A negra chorou de alegria.
Felisberta, a negrinha, estendia a toalha sobre a mesa, para o almoço quando Jesuíno Carneiro gritou lá da porteira: Ó de casa! João Ricardo foi-lhe ao encontro. Amigos apeiem. A casa é nossa. Jesuíno Carneiro, proprietário da Fazenda Represa, chegara acompanhado de um rapaz, ainda moço, mas desconhecido de João Ricardo. Logo ao desmontar, Jesuíno apresentou a João Ricardo o visitante desconhecido. Era o Dr. Eugênio de Barros, hóspede da Fazenda Mombaça, de propriedade de Nicolau Gomes. Corria, sobre ele, fama bastante desagradável. Como cirurgião que era, fora responsável pela morte de uma jovem, pertencente a uma das mais importantes famílias do Rio de Janeiro. Era perito operador, por isso, os casos mais difíceis e melindrosos eram entregues às suas mãos. Um dia, porém, tendo marcado uma operação para a manhã seguinte, não se absteve de participar de uma noitada alegre na companhia dos amigos. Bebeu mais do que recomendava sua prudência. Na manhã da operação, apresentou-se ao hospital em condições pouco favoráveis para atuar como cirurgião. Os colegas que notaram insistiram para que não operasse naquela manhã. O estado da jovem era bastante melindroso para se ariscar. Ele, entretanto, confiando em suas mãos, não aceitou os conselhos. E o malogro se consumou, matando a moça. Com a morte da jovem veio a sua ruína. A família não lhe perdoou o fracasso, movendo contra ele campanha difamatória, aniquilando-o moralmente. Desesperado com o sucedido, abandonou o hospital, tornando-se, daí por diante, um pária da sociedade. Dos amigos do passado, o único que lhe fora leal foi Nicolau Gomes. João Ricardo não lhe negou hospitalidade, porém não o queria no seio dos seus familiares.
Eugenio sentou-se à mesa juntamente com o dono da casa, sua esposa e os rapazes. Às meninas não foi permitido participar daquele almoço. Margarida, entretanto, teve necessidade de atravessar a sala de refeições, enquanto almoçavam. A Eugenio não passou despercebida a sua pessoa. A figura graciosa da moça ficara gravada no coração do rapaz. Jamais havia amado e, naquele momento, ele sentiu que aquela seria a mulher ideal para os seus dias de solidão. Para Margarida também, aquele rapaz não lhe passara indiferente, achara-o simpático e bonitão, apesar de um tanto tristonho.
Quando D. Ludovina faleceu, João Ricardo assumiu a direção da Fazenda como herdeiro. D. Vininha, fazendo vistas gordas para os bens que tocaram ao cunhado, propôs um ganancioso ajuste. Combinou com ele o casamento de Cláudio com Margarida. A contragosto de D. Ofélia, Margarida foi prometida em casamento ao primo. Sinhozinho Cláudio não era homem para se casar com nenhuma das duas meninas do solar. Mãe Sota sabia que Sinhozinho Cláudio andava rondando a casa do capataz Evaristo. A filha do caboclo estava com quinze anos e era fogueta como uma eguinha no cio. Mãe Sota bem que havia de gostar que o patrão viesse a saber de tudo. Só assim desfaria o compromisso de casamento entre o sobrinho e Margarida.
Aquela manhã de junho anunciou-se menos friorenta do que as outras. Ao constatar a firmeza do tempo e o colorido exuberante do firmamento, Margarida sorriu satisfeita. Seus olhos brilharam de incontida alegria. Debruçou-se no peitoril da janela, o queixo entre as mãos e ficou a imaginar como seria, daquela vez, a festa de Santo Antônio. Diziam que o santo era casamenteiro. Será que estaria casada no próximo ano? Casar-se-ia com o primo Cláudio... Mas por que casar-se com primo quando havia tantos homens distintos com quem poderia se casar? Seu pensamento voltou-se àquela manhã, em que aquele desconhecido lhe ocupara o pensamento. Teria mesmo que se casar com Cláudio? E a lembrança que lhe ficara no coração, o rapaz que vira em sua casa naquela manhã de dezembro? Que teria sido feito dele? Foi quando Maristela, sua irmã, disse: Eu sei por que Mãe Sota não gosta do primo Cláudio. Filomena me contou que o primo Cláudio andou bulindo com a Felisberta quando esteve aqui em dezembro, e agora ela está esperando filho dele.
As festas na Fazenda Trabijú eram maravilhosas. Honrava-se Santo Antônio por ser o santo de devoção do fazendeiro que se chamava Antônio. De véspera, armavam uma enorme pira de lenha no meio do terreiro de café. A madeira seca queimava durante toda a noite. Um forte laço de amizade unia as famílias do Trabijú e das Oliveiras. Os fazendeiros se davam intimamente e os filhos se queriam como parentes. Margarida e Maria Inês se queriam muito. As duas andando pelo terreiro, subitamente, Margarida parou. Seus olhos se cruzaram com outros olhos que não lhes eram estranhos. Ele lá estava, encostado ao batente da porta. Era o Dr. Eugenio de Barros. Mãe Sota me disse que papai não gostou muito da visita dele. É amigo do tio Nicolau e veio passar uns dias com ele. Tio Nonô pediu permissão ao papai para trazê-lo. Margarida não desprendia a atenção do rapaz. Sentia-se dominada por aquele olhar, tinha a absoluta certeza de que lhe era dirigido. Vendo a irmã em atitudes dengosas para o lado do desconhecido, Maristela repreendeu-a. Mana Guida, se papai enxergar mecê nesse namoro, vai castigá-la. Durante toda a noite, Margarida não conseguira dormir. Os olhos verdes de Eugenio fascinavam. À sua lembrança, seu coração batia descompassado. O sol do amanhecer encontrou Margarida acordada. Quando Mãe Sota entrou no quarto com a bandeja de café, ela já se encontrava vestida. Ondi é que vassuncê já vai ansim tão cedo? Pois é Mãe Sota hoje estou com vontade de andar.
Seria loucura acreditar naquele amor tão intempestivo, mas a verdade é que seu coração lhe dizia que jamais amaria outro homem com igual amor. Um ruído de folhas machucadas chamou-lhe a atenção para a margem do rio. Os olhos azuis de Margarida encontraram os olhos verdes de Eugenio. Admirava-se de que, em tão pouco tempo, a imagem de seu primo Cláudio se desvanecesse do seu pensamento. Sentiu que nascera para amar aquele homem, aqueles olhos verdes. Sabe quem sou? Perguntou-lhe Margarida. Sei, respondeu resoluto, sois a princesa dos contos de fada. As faces de Margarida se ruborizaram. Pareciam duas rosas escarlates. Parece-me que há muito tempo o conheço. Convencera-se de que jamais amaria Cláudio. Amava, sim, Eugenio, que conhecera há tão pouco tempo. Talvez nunca mais nos tornaremos a encontrar, disse ele. Queres partir comigo? Sim, meu amor. Seguir-vos-ei. E uma resolução firme se apoderou do coração de Margarida.
À noite, enquanto todos dormiam, menos Margarida, pé ante pé, ela abriu o guarda-vestidos e de lá tirou as roupas. Colocou-as com cuidado num bauzinho. Compreendia que o que ia fazer não era sensato, todavia sabia também que seu pai não lhe daria consentimento para se casar com Eugenio. O rapaz era considerado um pária no seio familiar das mais honradas estirpes da Província. Não esperava, portanto, o seu perdão. Saiu de casa. Desceu os degraus que jamais tornaria a pisar. Seguiu em direção à porteira, carregando com esforço sua pequena bagagem. Eugenio a esperava com dois cavalos arreados. O sol do amanhecer, filtrando-se pelas venezianas, encontrou vazia e intacta a cama de Margarida. Ao dar pela falta da irmã no seu leito, Maristela chorou desesperadamente. Mãe Sota foi encontrá-la em prantos.
Quando a notícia da fuga da Margarida estourou no Solar, todos recearam a cólera de João Ricardo. Temeram pela vida de Margarida. Ele, entretanto, fremindo de ódio, apenas falou: Que ela se entregue à própria sorte! Morreu para todos nós. Seu nome não deverá ser pronunciado entre estas paredes honradas. Filha desnaturada! Foi um capítulo dos mais dolorosos que se encerrou no Solar das Oliveiras. As datas de São João e São Pedro não foram festejadas daquela vez. O casarão estava de luto.
Tarde da noite, dormiam no solar quando Filomena bateu na janela do quarto de Mãe Sota. A negra tinha sono leve. Qualquer ruído a despertava logo. Ouviu a voz da escrava que a chamava. Saltou da cama e foi abrir a janela. Qui é que ocê tá quereno essa hora? A Beta tá cum dor, falou baixinho. Mãe Sota, apanhando o xale e a lamparina em cima da mesinha, acompanhou a negra até a senzala. No catre, a negrinha rolando de um lado para outro gemia alto. De espaço em espaço, Felisberta dava um gemido mais alto. Quando o dia clareou, Mãe Sota falou com D. Ofélia. Relatou-lhe o fato da madrugada, contando-lhe quem era o pai do negrinho. Por sorte, João Ricardo muito cedo rumara para a Vila, deixando de saber, portanto, o que se passava pelo curro. Seguindo Mãe Sota, D. Ofélia foi até a senzala ver o recém-nascido. Era um meninozinho lindo. Muito rosado e com traços de branco, denunciando sua progenitura. João Ricardo não teria piedade da negrinha. Mandaria açoitá-la se tentasse esconder a paternidade da criança. Naquela noite, porém, João Ricardo não regressou da cidade. De madrugada, quando todos dormiam, a negrinha, enrolando o recém-nascido em um pano, saiu com ele para o terreiro e se encaminhou para o lado do moinho. Atravessou o terreiro de café e se aproximou do lugar onde a água do rio caía sobre a roda gigantesca. Tirando o pano que envolvia a criança, jogou-a e voltou correndo para a senzala e se deitou no catre. A roda rangeu, sinistramente e parou. Na manhã seguinte, Giácomo, estranhando o silencio da máquina, para lá se dirigiu com Rogério e o negro desceu para ver o que teria parado a roda. Em poucos minutos, voltou com o corpinho do menino estraçalhado. A monstruosidade do crime revoltou toda a fazenda.
Cadeira 14H
Patrono: DR. CAIO GOMES FIGUEIREDO
LUCIANO RICARDO MARCONDES DA SILVA
Doutor em Biologia/Genética (USP), Mestre em Zootecnia/Melhoramento Genético Animal (UFMG), Pesquisador Científico nível VI (SAASP), Professor Titular (UNITAU), Chefe da Estação Experimental de Zootecnia de Pindamonhangaba (Haras Paulista), Chefe do Departamento de Ciências Agrárias (UNITAU), Vice-reitor da UNITAU e da UAM.
Comentários
Postar um comentário