A ARTE DE ENSINAR: ENTREVISTA COM MARLUCE LULU DE MELO

Meu primeiro encontro com Marluce foi na escola José Ferreira Barbosa, município de Campo Grande – MS. Ela estava organizando trabalhos para expor em um evento da escola. Em suas aulas, os alunos produziram imagens em diversos suportes, todos questionavam, problematizavam a questão étnico-racial, mas, mais que isso, também mostravam suas identidades de maneira afirmativa. Adorei a potência do que vi. Os alunos sentiam prazer em mostrar seus autorretratos e suas produções. O ano acabou, e só consegui entrar em contato com Marluce meses depois. Já eram tempos de pandemia, e gravamos nosso encontro remoto. Depois disso, pude transcrever e trabalhar o texto da entrevista de história de vida dessa grande educadora. Segue um pouco de sua narrativa.

Meu nome é Marluce Lulu de Melo, nasci e moro em Campo Grande – MS. Aqui, iniciei e concluí a minha formação. Parei de estudar no 8o ano. Quando, aos 16 anos, me casei, acreditava que nunca mais voltaria para a sala de aula. No entanto, aproximadamente, sete anos depois, o desejo de estudar começou a surgir em meu coração, bem como as necessidades financeiras. A vontade de me formar para poder ter um trabalho, conquistar minha independência era grande. Uma vez que me casei muito jovem, nunca tive um salário, virei dona de casa. Nesse momento, tinha meus três filhos, meu caçula estava com dois aninhos. Falei para meu ex-marido que queria voltar a estudar e ele me apoiou, cuidando das crianças. Assim, terminei o ginásio.

Passamos por um período de transição nas nossas vidas em relação ao trabalho. Meu ex-marido na época trabalhava com eventos e festas infantis. Era uma pessoa muito conhecida em Campo Grande. Nós tínhamos festas de segunda a segunda. Era muito cansativo. Ele montou um salão de festas na cidade. Toda a minha família (filhos e eu) começou a trabalhar lá. Como existia uma demanda por decorações de festas infantis, comecei a trabalhar com a arte, aos 18 anos. Não sabia que podia desenhar: no início, olhava e copiava; mas, com o passar do tempo, fui descobrindo a veia artística, criando as minhas decorações, criando cenários para teatro, figurinos para as peças infantis de que meus próprios filhos participavam como atores.

Passamos por um período bem extenso atendendo às festas no salão, foi uma fase bem cansativa para nós, pois, além do cuidado com os filhos, com a casa e com meu companheiro, tinha que lidar com as festas, desde atender ao telefone, atender aos clientes, fechar os negócios, receber, fazer a filmagem, a decoração, e muitas vezes até a limpeza. Chegou um momento em que problemas em meu casamento começaram a surgir, foi aí que desejei traçar o meu caminho, e aquilo tudo já não me dava nenhuma satisfação. Percebi a necessidade de estudar novamente, com 32 anos, havíamos fechado o salão porque o negócio se tornou muito cansativo.

Separamo-nos, e logo iniciei um cursinho, na época com um custo um tanto alto para mim; como não tinha dinheiro para pagar, corri atrás e conversei com a proprietária da escola, que era particular, fiz uma proposta de permuta, por serviços de pintura na parede da escola, nas turmas do pré e jardim. Pintei a escola inteira. Assim, conquistei meu supletivo em quatro meses. Finalizado esse processo, passei a almejar cursar uma faculdade, até então, algo praticamente impossível de acontecer, algo que anteriormente nunca havia imaginado, mas fui alimentando esse desejo dia após dia em meu coração. Passava de ônibus em frente à universidade federal (UFMS) e comecei a desejar estar ali, pensava: “Eu ainda vou estudar aqui, não sei quando, nem como, mas vou!”. Eu acredito que, quando desejamos demais algo, você acaba atraindo aquilo que pensa e deseja, as coisas vão acontecendo e se tornando realidade.

Como não tinha dinheiro para entrar em uma universidade privada, sabia que teria que estudar muito para entrar em uma pública; com essa consciência, fui atrás desse sonho. Na minha cabeça, era impossível, por não ter uma base boa de estudos. Mas estava determinada, então comentava com as pessoas e, quando sabia que alguém já havia passado por um vestibular, aí então é que perguntava mesmo! Acho até engraçado lembrar disso! E foi dessa forma. Certo dia, conversando com uma amiga, engenheira ambiental, fiquei muito motivada quando ouvi dela: "Marluce, não é difícil!”. Aquelas palavras entraram em mim, recebi aquela mensagem “não é difícil”, aquilo determinou o meu futuro, tenho certeza disso! A partir daí, a minha amiga me explicou como funcionava o processo do vestibular e o que deveria fazer.

Algumas semanas depois, foi fundado o Instituto Luther King, pelo Dr. Aleixo Paraguassú, juiz de direito, um amor de pessoa e exemplo de superação para mim. Essa mesma amiga, sabendo dos meus anseios, me falou dessa oportunidade de prestar uma prova para a seleção da primeira turma para ingressar no cursinho. Fiquei muito feliz e pensei que talvez fosse a oportunidade de realizar meu sonho. Fiz a prova e, de fato, fui selecionada. Eram duas turmas de 30 alunos. Tudo que pude aproveitar, aproveitei, não deixei passar nenhuma oportunidade de aprender. Ficava das 17h às 19h com as aulas de matemática e espanhol, que o professor ministrava de graça para aqueles que tinham muitas dificuldades, e depois até às 22h30 com as demais disciplinas. Sabia que se eu quisesse teria que pagar um preço. Prestava muita atenção nos exemplos de vida que alguns professores e até mesmo o Dr. Aleixo nos contavam sobre as suas conquistas, que também não foram nada fáceis. E isso me motivava muito. Foi dessa forma que consegui passar no vestibular da UFMS - e, detalhe, fui a única a passar para a federal dessas duas turmas, naquele ano. Foi a maior alegria de minha vida! No dia da prova, via todos os concorrentes, na maioria bem jovens, isso me deu um pouco de medo, mas mantive meu foco.

Fiquei um pouco indecisa entre escolher a licenciatura ou o bacharelado. No início, pensei em trabalhar com pinturas artísticas, no entanto, me preocupou o fato de depender de vendas de obras e do tempo até ganhar o reconhecimento. Assim, optei pela licenciatura, porque me daria condições de fazer um concurso e poder trabalhar, conquistar estabilidade financeira e, futuramente, fazer o bacharelado, pois o meu objetivo maior era me tornar uma bacharel em arte. Mas ainda não fiz isso, porque estou envolvida diretamente com crianças de todos os tipos e me identifico muito com minha infância.

Voltando então, passei no vestibular em 2003 e no ano seguinte iniciei os estudos. Concluí depois de sete anos. Entre 2005 e 2006, foi uma fase bem difícil, em que minha irmã descobriu que estava com câncer. Conversamos e decidimos o que seria melhor: fui morar com ela na época para ajudá-la, pois o câncer foi muito agressivo e já estava em estágio avançado. Ainda bem que os meus professores conheciam a minha irmã, porque ela também estudou na federal para ser professora de artes e me orientou muito, mesmo doente. Depois de três anos de luta, ela faleceu. Nesse período, 2005 a 2007, eu começava o curso e trancava todos os anos. Após sua morte, retomei os estudos, em 2008, já me sentindo recuperada e pensando: “agora vai”.

Peguei meu diploma em 2011. Durante a minha formação, tive conteúdos com a professora Marley Sigristi que dizem respeito a cultura regional, mas nada focado na parte da cultura afro-brasileira. Entretanto, venho de uma família mestiça, a minha bisavó e avó por parte de mãe era índia Terena e minha bisavó por parte de pai era negra. Isso me despertou o interesse em algumas questões de me olhar... “Eu sou branca. Mas por que sou assim?”. Quando era criança, na pré-escola, tive experiências negativas com bullying, e os professores não percebiam isso, não vigiavam. Hoje, vejo que fui muito prejudicada nesse sentido.

O meu ex-marido é negro, meus filhos são negros. O meu atual esposo é negro. Para ele, preto é cor e raça é negro, ele tem uma autoestima elevadíssima. O que acho excelente! Hoje, ele não sente o preconceito, acredito que encontrou uma forma de se blindar. Em uma de nossas conversas, contou-me sobre uma experiência na infância, uma situação que ocorreu com ele na escola, ocasionada, inclusive, por uma professora que puxou seu cabelo na nuca. Ficou extremamente constrangido pela forma como a professora agiu, fugiu da escola e não contou para a mãe. No começo, percebia que existia algo diferente, mas não sabia o que era, contudo, hoje sabe que era discriminação. Mesmo sendo uma época em que as questões dos direitos não eram tão abertas, o acontecido chegou aos ouvidos de sua mãe. Ela foi até a escola para resolver a situação, assim como qualquer mãe o faria, ficou furiosa, a direção mudou a professora de escola, mas o problema foi junto. Ele contou que, com o passar dos anos, saiu desse sentimento de exclusão graças a uma professora de arte. Isso me deixou muito feliz, por saber que existem outras pessoas que pensam como eu, que fazem o mesmo trabalho e que não estou sozinha. Ele conta que era muito tímido e que “onde entrava, parecia que as pessoas cochichavam e riam” dele. Sua professora de arte o colocou em um teatro, no qual seria personagem principal, um príncipe. Isso fez com que outras crianças passassem a olhá-lo e tratá-lo diferente, de forma mais amiga.

Na escola em que trabalho, José Ferreira Barbosa, cerca de 75% dos alunos são indígenas. Há, também, uma quantia pequena, de 5% a 10%, de origem afrodescendente. Acredito que todos esses meus questionamentos e preocupações me impulsionaram a trabalhar com a identidade dos meus alunos. Para que a criança de forma geral não se sinta rejeitada ou excluída.

Durante a minha formação em Artes, o que mais me chamou a atenção foram os estudos da Ana Mae Barbosa, com a abordagem triangular. Tudo que vivenciei durante a minha formação quis levar para a sala de aula, então, fui pesquisar sobre a Ana Mae, sobre seus trabalhos, para melhor desenvolver os meus em sala de aula. A Abordagem Triangular não se refere a um modelo ou método, mas tem o objetivo de focar na metodologia adotada nas aulas práticas, sem vínculo teórico padronizado, a fim de não engessar o processo.

A proposta triangular tem três eixos: o conhecer, o fazer e a fruição. Ou seja, o estudante vai conhecer o artista, a sua história, visualiza as obras, conhece elementos da linguagem visual para fazer a leitura completa, realiza trabalhos individuais e práticos. Às vezes, sigo o caminho inverso, que é criar primeiro os trabalhos e depois comparamos com a produção dos artistas. Esse método vai gerando no estudante uma construção de sensações, de conhecimentos, de experimentações, de experienciações e de expressões através do fazer artístico.

Iniciei meus trabalhos na Escola Estadual José Ferreira Barbosa (Campo Grande – MS) em 2015, desde então venho desenvolvendo projetos com o objetivo de fazer o estudante construir ou conhecer sua própria identidade, uma vez que são crianças extremamente fechadas, envergonhadas, com a autoestima baixa. No início do ano de 2019, fiz um pequeno questionário pessoal para eles, do 3o ao 9o, com o propósito de conhecê-los melhor. “Quem eu sou? Como é meu nome? Que idade eu tenho? Quantas pessoas tem na minha família? Como eu me vejo? Quais os meus sonhos”. Pelas respostas, pude perceber muitos problemas familiares: “Eu não tenho mãe; eu não tenho pai; moro com meus avós”. Na questão “O que quero ser quando crescer?”, percebi muitas respostas ligadas a “quero ser policial, quero ser militar”. Comecei a me questionar: “Por que eles querem isso?” E passei a refletir sobre as relações familiares. Muitos vivem em uma família desestruturada; com a falta do pai, a falta da mãe, muitos ficam sozinhos em casa; percebi muitas questões de brigas e abusos que eles presenciavam em seu cotidiano, a falta do diálogo, de ensinamento, de convivência, de afetividade. Isso me entristece muito. E penso que através da arte eles consigam traçar novos caminhos, construir sua identidade! “O que eu sou? O que eu quero para mim? O que eu quero mudar? ”, muitos perderam sua identidade, não sabem o que querem, perderam a vontade de viver. Em grande maioria, as crianças tiveram sérios problemas: o menino que viu o irmão sendo morto, a mãe que ficou com três filhos para criar sozinha e desempregada, o pai que está preso, o outro cujos pai e mãe estão presos, etc. A violência é muito presente na vida deles e cresce em uma sociedade em que são discriminados. Até mesmo dentro da sala de aula, porque tem colegas que não querem sentar ao lado deles.

Diante dessas situações, busquei, dentro da arte, fazer com que essas crianças vissem a vida de uma maneira mais possível de ser feliz, em que elas próprias tivessem autonomia de escolher e transformar o seu caminho! O que podia fazer para modificar o pensamento dentro dessa realidade? Muitas vezes, durante as aulas, deixei de lado o conteúdo da disciplina para dialogar sobre respeito, empatia, carinho, sonhos, medos. E sei que esses momentos de conversa geram coisas boas neles, porque isso reflete em seus trabalhos. Muitos tinham vergonha de se retratar, desenhar seu cabelo, os seus traços. Assim, os trabalhos foram nesse sentido de mostrar a eles quem são e como são, que são importantes, que precisam valorizar-se a si mesmos, que sentissem orgulho de sua raça, de sua cor, de seus cabelos, etc. “Eu sou. Eu posso. Eu sou capaz”.

Diante das questões, veio a ideia de trabalhar artistas que abordassem as questões do cotidiano, da família, como Cândido Portinari, Tarsila do Amaral, entre outros. Um nome muito importante também foi Vik Muniz, um artista contemporâneo brasileiro e que muito tem contribuído para a realização desses projetos, pois sua arte trabalha materiais inutilizados, lixo, descartáveis. Vik Muniz fez um documentário, “Lixo Extraordinário”, maravilhoso! Foi apresentado a eles, em sala de aula, isso foi muito bom, pois puderam observar e refletir sobre um outro cenário, um outro contexto de vida! O que eu quis provocar neles? Uma percepção de que tudo pode ser transformado, inclusive nós! De que nada é perdido e para que eles entendessem a respeito de si mesmos. E, dentro disso, fazer esse trabalho de contextualização histórica, da apreciação artística.

Diante da escassez de materiais na escola pública, buscamos trabalhar com materiais descartáveis, assim como Vik Muniz. Trabalhamos com pó de café, retalhos, embalagens, aquilo que não era convencional, o que tivessem em mãos. O que a escola precisou dar? Cola, tinta... E, se não tivesse pincel, nós pintamos com os dedos, com espumas, mas conseguimos. A arte é assim, precisamos nos desdobrar e inventar. O objetivo era fazer com que eles se conhecessem e percebessem que poderiam ser eles próprios construtores de sua própria identidade através do fazer artístico. Trabalhando a autoestima, para que se soltassem, e se gostassem como são. Teve uma estudante que, no início, não queria soltar o cabelo: com muito carinho, fui ressaltando a beleza dela - “Olha só para você”. Até que ela se soltou, tirou a foto, trabalhou no desenho dela. Eles ficaram com orgulho, foi muito importante. Foi um trabalho muito simples, não teve condição de tela, a escola comprou os papéis, as cartolinas, e realizamos. A intenção é levar esses trabalhos ao museu para fazer uma exposição e ver a reação deles.

É interessante refletir sobre a minha prática enquanto docente, e as mudanças que ocorrem ao longo dos anos, porque toda vez que fazemos um trabalho novo, nós vamos descobrindo novas formas. Nesse trabalho, especificamente, eu não sabia como terminaria. Nós conversamos, fomos planejando, e foi indo. Durante esse período, contei com a ajuda e a experiência de duas amigas professoras, a Madá (afrodescendente) e a prof. Inésia (índia Terena).Conversamos, expus minhas ideias, e fomos criando juntas.

No ano de 2019, trabalhei nesse projeto com a orientação da Profa. Dra. Maria Lima, foi um trabalho com resultados extraordinários. É nítido para quem convive com as crianças o quanto elas mudaram nesses últimos anos, devido aos projetos que desenvolvemos. Eles eram muito introvertidos, tímidos; muitas vezes, não se adaptavam ao ambiente; por causa do período que passavam na aldeia, eles voltavam sujos, descalços, sem higiene pessoal, e eram excluídos ou se afastavam por vergonha dos colegas da turma. Certo dia, perguntei: “Quem são os indígenas na turma? ”, porque íamos fazer um trabalho a respeito. Dos 60% da turma que eram indígenas, muito pouco se assumiu, pois tinham vergonha. Uma aluna respondeu: “Eu não sou índia, fulana que é”, e a menina ficou com vergonha, como se fosse errado. Essa aluna falou: “Ela tem vergonha porque mora embaixo da lona”. Isso me preocupou. Nessa época, a coordenadora e eu fizemos uma pesquisa de campo na redondeza e percebemos a situação econômica, o ambiente social, era muito difícil. Surgiu, então, a ideia de realizarmos um desfile de beleza, no qual conseguimos trazer as crianças para a autoafirmação, “Eu sou”.

Se, de um lado, tínhamos as indígenas que não aceitavam o cabelo liso, por outro, tínhamos as afrodescendentes que não aceitavam o cabelo cacheado e crespo. No início, foi difícil, porque elas tinham vergonha, mas com muita conversa conseguimos. “Olha para você, são lindas”. A escola inteira participou, tinha jurados, tinha premiação, oficinas para confecção dos apetrechos indígenas. As crianças que iam para as aldeias ficaram nas oficinas de arco e flecha, de pintura corporal ou de construção de brinquinhos. No final, os meninos queriam participar, ser os guerreiros, todos se empolgaram. Mas o objetivo final era que eles interagissem e recuperassem a autoestima e, por meio desse projeto, mostrar a eles como sua cultura e beleza são importantes para todos. A Enésia me auxiliou nesse sentido, de organização, com a experiência dela. Foi um projeto lindo, que transformou os estudantes de maneira positiva, reafirmando quem são e fortalecendo sua identidade.

Posso falar que fazemos um trabalho de formiguinha, mesmo. Há muitas coisas que fazemos na escola, para as quais a criança não tem o respaldo em casa. Ou seja, ela vive um contexto na escola, mas em casa é totalmente diferente. Se fosse um conjunto, seria mais fácil e rápido, mas não temos esse poder. Tudo que eu vivi quando criança, o bullying... me despertou para o que sou hoje, e para o meu trabalho - o de resgatar a autoestima perdida em algum momento na vida dessas crianças. As pessoas que me feriram no primeiro ano do fundamental seguiram suas vidas, sem saber que, de alguma maneira, estavam assim contribuindo para a formação de minha identidade! Foi muito difícil, era muito introvertida, passava horas sozinha, me perguntando “por quê?”.

Então, hoje consigo entender de alguma forma as crianças. Tive muitos professores que me ajudaram, mesmo que de forma inconsciente, não abordando diretamente o assunto, mas falando de caráter. Consegui compreender um pouco as coisas, e isso me ajudou a construir minha identidade. Por isso, tento levar isso para os meus alunos. Muitas vezes e em sua grande maioria, não tem diálogo em casa; por falta de tempo, as mães e os pais trabalham. Ajudam a fazer as lições, mas muitas não têm esse costume, é tudo muito corrido, o que provoca nas crianças essa carência.

Iniciei o trabalho de professora vendo muitos profissionais tratando as crianças com termos pejorativos. Comecei a pensar: “Não posso ser assim, quero mudança”. No meu TCC, um dos professores deu um feedback, por escrito, o qual guardo até hoje, dizendo que meus pensamentos eram “utópicos”. Isso me deu uma entristecida. Pensei: “Será que é utopia? Será que eu não posso fazer nada pelas crianças? Será que é impossível alcançar esses objetivos?”. Quando estou na escola e vejo o quanto mudaram, através desses projetos realizados nos anos anteriores, sinto que não é utopia! Às vezes, o pouco que estou fazendo ali pode parecer pequeno, mas acredito que eles podem ser transformados e também transformar. Não é utopia.

Quando cheguei à escola, eram muito comuns situações de discriminação, racismo, exclusão (xingamentos do tipo “esse macaco”)... Comecei a questionar, a falar, trabalhar essas questões. Passei a refletir sobre as datas comemorativas, a história do Brasil, a cultura afro, a história da chegada dos negros, o contexto histórico, por que eles foram e são discriminados, e a tratar o racismo abertamente. Falar que o racismo é camuflado dentro da nossa sociedade e que ele começa dentro da casa das crianças, com piadinhas, enfim, abordar, refletir e questionar com eles essas situações.

Muitos professores não fazem a mesma leitura da arte que eu faço. A arte pode ser muito mais do que a técnica, ela aborda outras coisas ao redor, serve como canal para a construção de um ser ativo, reflexivo e capaz! Muitos professores ensinam a arte pela técnica, arte pela arte, é como se a criança estivesse fazendo um curso, perde o contato, não cria um vínculo bonito.

Acho que a mensagem que tinha para passar é a questão da sensibilidade, de perceber no olhar do estudante o seu sentimento. Muitos estão gritando por carinho, por um abraço, por socorro, por atenção! A empatia do professor é primordial! Essa era a preocupação na minha formação. A correria do dia a dia acaba atrapalhando, mas o pouco que a gente faz com as crianças, seja um “oi”, um abraço, ou tirar um tempo para conversar, perguntar sobre a vida, faz diferença na vida deles! Porque o tempo que você está ali é o que ele não tem em casa, e esse tempo tem que ser de qualidade! É na escola que vamos plantar a sementinha, e uma hora ela vai brotar!!! Acredito que os projetos realizados vão gerar muitos frutos no futuro.

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Cadeira 11H

Patrono: VICENTE DE PAULA SALGADO

SUZANA LOPES SALGADO RIBEIRO


Professora, pesquisadora e mulher. Graduou-se em História pela Universidade de São Paulo (bacharelado 1998 e licenciatura 2003). Fez mestrado (2002) e doutorado (2007) em História Social na mesma instituição em que se formou, e pode, por meio de suas pesquisas, desenvolver um olhar especial para a questão de gênero, provocada pela ação dos movimentos sociais. Foi também pela pesquisa, na prática da História Oral, que aprendeu a ouvir histórias e compreender suas subjetividades complexas. É, atualmente, professora da Universidade de Taubaté - UNITAU e do Centro Universitário do Sul de Minas de forma que uniu em seu fazer a educação e a pesquisa, aprendendo e ensinando sobre práticas e formação docentes, sobre ensino de história, sobre as preocupações com as diversidades e diferenças, diferenças. Foi professora do Colégio Giordano Bruno, da Universidade Paulista - UNIP, e da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul - UFMS. Nesses fazeres aprendeu a ensinar outras pessoas a serem pesquisadores, orientando trabalhos de graduação e pós-graduação, mas também aprendeu com seus alunos do ensino fundamental e médio a ensinar outros alunos na faculdade a se tornarem educadores. É pesquisadora do Neho em Rede - Núcleo de Estudos em História Oral, do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Ensino de História e Práticas de Linguagem - Currículo, História e Cultura (GEPEH/UFMS) entre outros grupos de pesquisa. A partir do que aprendeu com as pessoas e suas histórias de vida escreveu livros, entre os quais: “Guia prático de História Oral” (2011), “Vozes da marcha pela terra” (indicado para o prêmio Jabuti em 1998), “Vozes da Terra - história de vida dos assentados rurais de São Paulo” (2005) e “Produção do conhecimento histórico” (2009/2010), além artigos em livros e periódicos. Na busca por uma educação pública, democrática e para todos desenvolveu materiais de apoio acadêmico para o ensino à distância e ministrou cursos para a Universidade Aberta do Brasil - UAB e para a Universidade de Taubaté - UNITAU. Tem experiência de pesquisa e de docência em Educação, História e Metodologia de Pesquisa, atuando principalmente com os seguintes temas: História Oral, Memória, Identidade, Direitos, Diversidade, Diferença, Práticas Docentes, Formação de Professores e Ensino de História.

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