UMA PRISÃO A SE COMEMORAR!

Nunca me esquecerei do dia em que fui preso! Realmente foi um dia de muita sorte para mim. Era o dia da volta da Seleção Brasileira, após a conquista do bicampeonato mundial na Copa do Chile de 1962. A chegada do Caravelle da Panair do Brasil estava prevista para às 14 horas em Congonhas. Fui para lá por volta das 10 da manhã.

O aeroporto já estava lotado. Teve gente que madrugou por lá. São Paulo inteira estava nas ruas à espera da Seleção. Ao longo de todo o trajeto do Aeroporto ao Estádio do Pacaembu já não havia lugar para mais ninguém junto aos meios-fios, escadarias, muros, ou outros lugares apropriados para ver e ovacionar o cortejo dos heróicos bicampeões. No aeroporto era completamente impossível encontrar uma fresta por onde se pudesse ver a Seleção. 

Aí, como sempre, aparecem uns “sabidos” descobrindo a solução do problema. E a solução encontrada foi ir se pendurando nos galhos de uma trepadeira “primavera”, existente na calçada externa da estação de passageiros até subir na cobertura da ala norte do aeroporto, onde – então – funcionava o desembarque internacional. Segui os “sabidos” e achei que ia me dar bem. Ali da cobertura, a vista seria esplêndida, pois o Caravelle iria parar a poucos metros do local.

Seria.... se a polícia deixasse aquele povão todo se aglomerando na cobertura daquela ala, ameaçando fazer aquilo tudo desabar na cabeça dos nossos heróis e ilustres pessoas que os aguardavam. No começo a polícia militar (então chamada de Força Pública) agiu com muito bons modos. Pedia aos invasores do telhado que descessem em ordem e segurança. Ninguém descia. Driblava-se um policial aqui, outro ali e todos procuravam ganhar mais um minutinho, pois o Caravelle já estava para chegar. Aí, a polícia perdeu a paciência. Organizou um cordão em uma das extremidades da cobertura e de lá – baixando o cassetete - marchou contra a multidão naquele estilo que anos depois veio a se tornar muito conhecido na repressão a passeatas estudantis, comícios e outros “atos subversivos”.

A subida tinha sido fácil e segura, com a gente se firmando nos galhos robustos da primavera. Mas a descida teve de ser em um salto só, sem planejamento, nem estratégia, porque as bordoadas da polícia não davam tempo para imaginar jeito melhor.

Dei um salto de uns quatro metros do telhado até a calçada. Amorteci a queda com as mãos, mas elas ficaram com as palmas raladas no cimento da calçada. Instintivamente, limpei os ferimentos no peito da camisa clara, que ficou toda estampada de vermelho. Aí, resolvi lavar as mãos. Quando saí do sanitário, na porta, estava acontecendo um sururu. A polícia, que chegou para apartar a briga, achou que a minha camisa suja de sangue era prova suficiente para me culpar da tal confusão que eu nem havia visto. O “Teje preso” foi imediato e irrevogável, apesar de todos meus argumentos contrários. Um par de algemas surgiu imediatamente e atrelou meu pulso direito ao esquerdo de um servente de pedreiro, – com a roupa manchada de cimento e cal e uma marmita debaixo do braço – inocente, como eu, mas também preso por causa da confusão.

O Aeroporto não tinha lugar reservado para presos. Então, fomos levados para o que havia de mais parecido: a sala da Polícia Federal. Cercada por divisórias de compensado, ela tinha uns quatro metros por cinco e um lado envidraçado, dando frente para um corredor estreito, onde ficavam os guichês para carimbar os passaportes de quem chegava ou saía do país. Achei o lugar ótimo. Não poderia desejar outro melhor para ver de perto a chegada dos atletas bicampeões. Lógico que eles não iriam carimbar seus passaportes, coisa que super-heróis não fazem, nem nunca vão fazer. Mas teriam de passar pelo tal corredor, que era a única saída do aeroporto.

Não demorou muito e eles vieram. Cercados por uma compacta multidão, mais carregados do que andando, lá estavam Pelé, Garrincha, Zito, Amarildo, Vavá, Feolla, Paulo Machado de Carvalho, atletas e cartolas irmanados no doce delírio do triunfo. A gritaria de vivas era ensurdecedora. Sob certos aspectos a calorosa recepção até parecia hostil. Mas os super-heróis também se deliciavam com ela. Com as mãos atadas pela algema, eu e o servente de pedreiro acenamos para os atletas e, aparentemente, fomos correspondidos por eles. Foi a glória!

Mas nossa deliciosa aventura não terminou por aí. Logo que os jogadores e dirigentes da Seleção passaram pelo corredor e embarcaram no caminhão dos bombeiros, que os levaria até o Pacaembú, nós também embarcamos...

Em um fusquinha da Rádio Patrulha, que nos levaria à Central de Polícia, então localizada no Pátio do Colégio, centro da cidade. Lá fomos nós. Sirene ligada, cortando a multidão que delirava e lentamente se arrastava em torno do caminhão dos bombeiros. Quatro ou cinco horas depois, quando passamos pela sede da Federação Paulista de Futebol, na Av. Brigadeiro Luís Antonio, um tenente da polícia parou nossa RP e perguntou ao cabo que a dirigia que tipo de delito tinha sido praticado pelos presos que ele levava. “Briga no Aeroporto, sem ferimentos”, informou o cabo. “Então, solte os dois e pegue outros dois, que trocaram facadas por aqui!” ordenou o tenente. Pronto. Estávamos alegres e soltos no centro da cidade, livres das despesas e do sufoco de pegar um ônibus lotado para fazer o mesmo trajeto. A Seleção só chegou à solenidade de recepção no Pacaembu depois das 10 da noite. Bem antes disso, eu já estava em meu apartamento na Av. São João, já havia tomado minha sopa e estava metido sob as cobertas naquela noite gelada.

São tantas e tão gratas emoções que passados tantos anos daquele dia, eu ainda me lembro dos mínimos pormenores daquela aventura que transformou a tristeza de uma prisão na alegria de um dia cheio de satisfações deliciosas para se recordar pela vida inteira.

RESUMO DA HISTÓRIA: Sou um cara tão sortudo que até minha prisão não é para ser lamentada. É para ser comemorada!


* * *

Cadeira 37T

Patrono: MANOEL CÉSAR RIBEIRO

LUIZ SALGADO RIBEIRO


Nasceu em Pindamonhangaba, em 13/2/44. Começou a vida de jornalista em novembro de 64, como revisor de A Gazeta, de São Paulo. Em 68, foi chefe de redação de A Crítica, de Manaus, e correspondente de O Estado de S. Paulo. Em 71, assumiu a chefia da recém-criada Agência Estado. Em 76 passou a repórter especial do Estadão e no ano seguinte deixou este cargo para montar seu próprio Jornal da Terra – dirigido a colonos pioneiros - no interior de Mato Grosso. Em 80 foi diretor da Tribuna do Norte, e, depois se tornou repórter de economia da Folha de S. Paulo. Em 86, coordenou a comunicação social do Ministério da Reforma e do Desenvolvimento Agrário – MIRAD. Em seguida, repórter do Jornal de Brasília e do Correio Braziliense. Em 91, volta a Pindamonhangaba e chefia a Comunicação Social da Câmara dos Vereadores. Em 92 foi gerente da Divisão de Imprensa da Telesp. Em 94, assessorou a campanha de Geraldo Alckmin, candidato a vice-governador, na chapa de Mário Covas. Depois continuou assessorando Alckmin como vice-governador e em 2001, quando Alckmin passou a governador, foi seu Secretário de Comunicação, por duas vezes. Aposentou-se depois de trabalhar na campanha de Alckmin para a Presidência da República. Em 2008, lançou seu Andanças, histórias de um jornalista à moda antiga, pela Primavera Editorial (à venda na Livraria Folha).


Comentários

  1. Luiz Salgado Ribeiro, depois de meu pai e meu tio Manoel César Ribeiro, o primo mais velho, o "Di", se tornou meu herói desde muito pequeno. Esperava ansioso seu retorno a Pindamonhangaba para nos contar suas aventuras na Amazônia e entre os índios quando acompanhou os irmãos Villas Boas , famosos indígenas tas. Quando fui convidado por ele para ser o REVISOR FINAL de seus livros, principalmente o primeiro e épico "ANDANÇAS, histórias de um jornalista a moda antiga ",me senti super honrado e na hora do lançamento, na Casa das Rosas na Av. Paulista, eu disse : " Luiz , 70% destas histórias eu ouvi na minha infância e adolescência! Portanto vou pagar só 30% do livro!" Rimos muito. Luiz Salgado Ribeiro teve muita influência na maneira que escrevo e crio os meus textos literários! Um grande exemplo de vida! Muita saudade do primo querido!

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