DOCES LEMBRANÇAS

Aquela soleira alta da porta da cozinha: roliça, grossa e bem lisinha, feita de jerivá. Foi naquela tarde de tempestade que o raio roçou o nosso velho coqueiro, era a sobra sem queimar do seu tronco que foi trazido junto a porta e, assim nos proteger das cobras que ali em casa procuravam refúgio em pleno inverno!

Oh, soleira querida, me sentar em ti era gostoso demais e, quando eu a fazia de meu cavalinho possante os meus pensamentos eram velozes como um pé-de-vento, aí eu conseguia romper os meus limites sem a permissão de meus pais severos. Seguia com os meus cabelos esvoaçantes tocados pela brisa gostosa que me chegava como um carinho de Deus sussurrando em meus ouvidos: seria a voz de meu Anjo da Guarda? Ou mesmo a voz Divina me encorajando e me instigando nessa viagem mágica?

Eu percebia muito que era um momento de intensa felicidade!

E eu seguia naquela estrada cheia de curvas! Era um vai-e-vem bem animado: as pessoas eram alegres, pedalavam cantarolando, ou ora assobiando as músicas de sucesso! Até eu me lembrava da linda família Bleck toda loirinha lotando uma charrete para ir à grande Escola lá da cidade! Até eu achava que eram descendentes dos alemães que ficaram confinados no Haras Paulista (Fazenda do Governo) durante a Segunda Guerra, pois esse episódio o papai, exímio leitor nos comentava sempre!

E eu também ficava a pensar: e a minha vez de ir à Escola? Seria de pé? (como costumam dizer alguns baianos). E será que isso eu aguentaria? Pois o vovô tinha um carinho especial pelos seus cavalos, usava-os nas carroças mas aos domingos lhes dava folga. Acreditem, aos domingos o vovô caminhava quatro km à pé para ir assistir a missa às seis horas e meia na Igreja dos Salesianos e, em jejum para poder receber a Eucaristia como era a tradição da nossa Igreja!!

Com certeza futuramente eu iria à pé até a tal Escola, coragem é que não iria me faltar!

E eu ia me levando nessa cavalgada encantada bem para perto do horizonte. Eu achava: logo ali é o fim da linha, é o fim do mundo! E se fosse mesmo? Que gostoso que seria! Tudo era tão lindo e agradável porque a natureza estava sempre maravilhosa e incrivelmente acolhedora!

Como eu gosto de me deliciar nessas minhas doces lembranças!

* * *

Cadeira 38T

Patrono: JOSÉ BENEDITO CURSINO

ANGÉLICA MARIA CORTEZ CAVALHEIRO


Dedicou a sua vida profissional à área da Pedagogia Educacional, publicou livros com histórias da literatura juvenil e fez parte de várias antologias poéticas. Entre suas obras destaca-se o livro “CIPRIANO”, uma narrativa romanesca sobre as memórias do Vale do Paraíba divulgando o êxodo rural bem acentuado na década de 1960.

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