A CARROÇA FANTASMA
Sinto-me mais solidário com os vencidos do que com os santos. Creio que não sinto atração pelo heroísmo e pela santidade. O que me interessa é ser um homem.
Albert Camus, “A Peste”,
ed. Record, 1993, p. 177
“Nunca passei tanto medo em minha vida”, declarou a mãe com a criança ao colo, reportando-se à carroça fantasma que tinha visto ao longo da estrada. Ela fora escolhida pelo carroceiro invisível e sinistro para ser a testemunha ocular de que os habitantes daquela cidadela agora estavam com seus dias contados. O pavor acompanhou todos os ouvintes adolescentes, adultos e idosos que estavam atentos à narrativa assustadora da pobre mãe em prantos. A precavida mulher estava certa de que a tal carroça fantasma era a mesma que havia levado o seu esposo há dois anos. Sem convencer os moradores locais de sua teoria, a mãe estava decidida a partir dali sozinha. “Essa carroça é um sinal da morte que bate à nossa porta, não sou dona da verdade, mas fui escolhida pelo acaso para ser a testemunha da sua chegada”, disse a mãe em sua convicção.
Nossa protagonista no fundo sabia que ninguém havia acreditado em uma palavra sequer de tudo o que ela havia dito. Afinal, se tivessem acreditado, seriam como ela e não permaneceriam naquele lugar à espera de a morte bater às portas de suas casas. Por certo, a vida dos habitantes daquela cidade perdida desapareceria com o andar daquela carroça. E os corpos inertes de tais pessoas seriam abandonados nas ruas do vilarejo, sem direito aos rituais sagrados e fúnebres ou às covas do cemitério. Tudo estaria consumado, mas distante da mãe e de sua criança.
Quando se retirou pela estrada com seu filho ao colo para livrar-se daquela maldição, no silêncio da madrugada, a mãe fez uma oração que sinalizou suas inquietações sobre o risco de morte e a realidade ameaçadora ao redor, não só a da aparição, como a de prováveis malfeitores que poderiam surgir em meio à escuridão.
De repente, a mulher escuta um ruído no denso nevoeiro. Tal som vem lá do final da estrada, onde não se vê o destino. Devagar ela reduz os seus passos. Suas pernas, literalmente, tremem! Não de frio, mas só em pensar o que pode ser. Pede a Deus para que seja mais um transeunte, mas o som parece de rodas enferrujadas a se movimentarem em um gira-gira louco e assustador. Pensa em correr para fora da pista! Porém, tarde demais. O denso nevoeiro chega e com ele espectros que bailam à sua volta. Tais criaturas fantasmagóricas formam uma ciranda ao seu redor e cantarolam uma triste e silenciosa canção de ninar. Parecem amebas flutuando em um líquido turvo. Súbito o nevoeiro dispersa, e a carroça fantasma surge do nada. “É tarde!”, pensa, mas agora em total desespero, a mãe agarrada ao filho em seu colo. Nesse instante, ela percebe que aquela carroça demoníaca parece um brinquedo, pois ela é toda pintada de azul celeste e de amarelo. “Mas, como assim?!”, indaga, sem entender absolutamente nada.
Na realidade, ela era toda ornamentada de arabescos amarelos que se destacavam em meio a um azul ora claro, ora mais escuro. Há um toque feminino ali, mas ainda assim é cruel.
Silêncio total. Um vento forte e penetrante bate na direção da mãe e do filho. O carroceiro invisível está ali, ela o pressente como uma bolha gélida e transparente. E tal chegada anuncia as causas que dão origem ao medo da morte. A primeira sensação é uma incerteza que brota, provavelmente, de uma possível fragilidade dessa vida humana temerária, em um princípio imortal que parece sobreviver no final dessa existência terrena. O filho no colo da mãe parece enxergar tudo. Nesse instante, a mãe vê que a idéia do carroceiro fantasma está ligada ao medo da morte, a uma sensação que todo e qualquer ser vivente e pensante pode perceber como o absurdo, mas que a nossa própria mente é incapaz de processar.
Partindo dessa aparição do carroceiro fantasma, aquela mãe passou a entender que o fantasma do corpo morto surgido no nevoeiro, como uma espécie de brincadeira da morte, estava ali diante deles para abraçar certamente uma daquelas vidas, talvez a mais frágil ou a mais pura, só Deus poderia saber o que se passava no desejo daquele espectro fanfarrão. E a partir desse novo entendimento, revelado no instante crucial, é que a mãe teve o pressentimento doloroso de que aquela ameaça estava totalmente relacionada à existência de seu filho, ou seja, aquela praga havia surgido para levar o inocente, para banir do mundo a inocência, para punir aqueles pais impuros ao mesmo tempo. “Ai de mim! (...) Ai de mim! (...) Ai de mim! (...)”, lamentava nossa protagonista, na cadência do seu coração acelerado. “Poderia haver algo que vai além desse amor por meu filho e que ainda eu não posso entender? Suportarei viver sem o meu filho?”, estas eram as perguntas que aquela mãe fazia sem ter a coragem de responder.
Enquanto esse temor era introjetado em seu coração, a corajosa mulher sentia o filho desfalecer em seu colo. A pandemia desse mundo era a ausência do colo materno. Era o genocídio! E, embora ela bradasse aos céus o amor pelo filho, o carroceiro fantasma continuaria a devorar as crianças que, aos poucos, mergulhavam a cidade na escuridão. E, finalmente, ela entendeu: o seu filho era parte dela, mas a partir daquela hora tremenda estaria condenada à solidão, estaria sozinha em sua existência. Um silêncio aterrador foi ouvido pela mãe! E a imagem da criança em seu último suspiro congelou. O corpo do seu bebê tornou-se insustentável no colo materno. Um grito ensurdecedor ecoou no peito da mãe. O coração parou. A vida ali esgotou. Não havia mais o que fazer... O pequenino pulmão não mais inspirava e expirava o ar como outrora. Tudo estava consumado! E naquela dor inesgotável, o carroceiro fantasma partiu, com todo o seu séquito espectral e levando só a criança consigo, já que, naquela noite, ninguém sabe o porquê, resolvera poupar a vida daquela mãe.
Sete dias se passaram, e aquela mãe permaneceu ali, naquela estrada deserta, imóvel tal qual um “cadáver adiado”. E seria assim para sempre. O fato é que aqueles dolorosos dias trouxeram àquela mulher a consciência de sua tragédia. E isso bastava para ela estar viva. “Eu quero cravar as minhas unhas no asfalto dessa estrada e acreditar que só existe o nada!”, bradou a mãe aos céus. E continuou em sua ira: “Se não existe Deus, é sinal que somos livres para morrer!”. A atitude mais digna para aquela mulher desolada era a revolta, daí seu desejo de cravar as unhas no abismo do nada, da morte, do absurdo.
Mas a vida não termina nunca! A mãe já estava com seus cabelos desgrenhados, com seus lábios rachados, com os olhos rubros de tanto chorar, com as roupas já desbotadas pelo Sol. Do ponto onde estava, ouviu muitos lamentos. Todos provenientes das ruas da cidade. Sua intuição havia se materializado: a pequena cidade era um grande sepulcro. Da forma pela qual percebia toda aquela mortandade inesperada, a parar o fluxo natural da vida, pensava em seu íntimo que o ser humano, se não é capaz de reter em suas mãos a felicidade em todos os seus dias, é porque inicialmente ele ainda é nada. Ela, enquanto mãe, solitária na estrada, sem o amado filho, era nada. E somente poderia ser algo num estágio posterior. “Mas que estágio seria esse?”, indagou em sua aflição.
Tal qual o fogo que tudo consome, a pandemia foi inevitável. Ela chegou invisível, mas extremamente letal, por certo a distração e a incredulidade ajudaram a impulsioná-la. A carroça fantasma não agenda horário, ela é imprevisível. No coração daquela mãe, uma luta ferrenha foi travada com sua intuição materna, que dizia: “Eu não quero deixar de ser mãe!”. A carroça fantasma aproximou-se silenciosamente naquela noite na estrada. “Se eu tivesse tido mais tempo!” – lamentou nossa protagonista. O milagre da vida de seu filho acabou-se como um conto ligeiro. Foi então transformado numa flor de saudade que trazia seu nome, a qual desabrocharia em todos os dias da vida daquela mãe. A mulher compreendera isso como ninguém, vitimada pela vida de seu filho que foi ceifada. O tempo presente para ela tornou-se brevíssimo, a ponto de, na verdade, não ser percebido. Deixou de existir antes de chegar.
Nessa angústia absurda, uma borboleta de asas de um azul profundo pousou no ombro de nossa heroína. E uma doce voz brincante de criança lhe disse: “Os teus dias estão passando”. De fato, a vida daquela mulher solitária na estrada estava em curso, fluía e se precipitava em sua angústia na sua luta contra o inevitável. E foi assim que, nesse instante, a borboleta, antes de alçar o seu voo, lhe disse mansamente, mas como um trovão: “Vamos, mamãe, não chore! Eu morri, mas seu coração continua a bater. A morte na cidade foi desastrosa, eu bem sei. Muitos perderam os seus filhos, assim como você. O João morreu, a Maria dormiu, o Pedro também morreu... O Chiquinho está em prantos. Porém, a tua vida não passou. A carroça fantasma foi dura no nevoeiro da estrada. Minha morte foi dura e te golpeou. Isso certamente não cicatrizará, mas sente o vento em meio ao teu pranto e corre de braços abertos pela estrada! Vamos! Vive outra vez, mamãe, até chegar a tua fatídica hora! É o que te peço. A Deus”.
* * *
Cadeira 24T
Patrono: ALEXANDRE MACHADO SALGADO
FÁBIO MENDES
Fábio Mendes é natural de Pindamonhangaba. Pintor autodidata, ator, professor, filósofo, escritor. Formou-se em Filosofia pela PUC-MG, Direito pela UNITAU, Pedagogia pela FMA - Jacareí. Fez especialização em Linguagens da Arte pela FAMUSC e em Ensino de Filosofia pela UFSCar, é mestre em Educação – Linha História, Filosofia e Sociologia da Educação - pela UFSCar. Atualmente, cursa especialização em Gestão Educacional pela USP – Turma 2021 e em Arte e Filosofia pela PUC-Rio – Turma 2021. Sua paixão é a estética filosófica.
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